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Por Márcia Christovam
Este texto é fruto das reflexões que brotaram no Passos da Alma, um encontro que realizo mensalmente na Logos Cia, sempre na última terça-feira do mês, num espaço reservado apenas às mulheres que ousam se escutar. Aqui caminhamos pelo arquétipo da Mulher Criativa.
No princípio de tudo — assim narra a tradição bíblica — “a terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre as águas. Então disse Deus: haja luz; e houve luz.” (Gênesis 1:2-3)
A história sagrada começa no vazio, no escuro, na ausência de forma.
E é justamente dali, do informe e do silêncio, que a luz se acende e a criação tem início.
Os mitos gregos também falam dessa mesma origem.
Antes de qualquer ordem, não havia Céu nem Terra, não havia destino ou caminho.
Havia apenas o Caos — um vazio primordial, sem chão e sem mapa.
E foi desse abismo que nasceu Gaia, a Terra, a Mãe de tudo.
Talvez seja por isso que toda mulher carrega em si essa memória antiga e silenciosa: a de que a vida não começa no conforto, mas na confusão; não no excesso de certezas, mas no desamparo.
É do escuro, do sem forma, que as sementes germinam.
É do caos que o útero da alma se abre para a criação.
A mulher criativa conhece esse segredo.
Ela não foge do caos — acolhe-o como matéria-prima.
Sabe que o barro precisa ser quebrado para ser moldado.
Que a dor, quando aceita, se transforma em útero.
Que o vazio, quando atravessado, se converte em ventre fértil.
Ela caminha com uma tocha acesa no meio da escuridão.
E o mais belo é que, ao iluminar o próprio caminho, abre estrada também para outras.
Muitas vezes, nossos dons repousam como livros empoeirados em uma biblioteca abandonada dentro de nós.
A mulher criativa é aquela que ousa entrar nesses escombros internos, levantar a poeira, abrir páginas antigas e reencontrar a sabedoria que estava adormecida.
Mas não se trata apenas de lembranças pessoais: ao abrir esses livros secretos, ela desperta também os saberes ancestrais que correm em sua linhagem. São memórias de sangue e de cultura, heranças invisíveis que lhe pertencem por direito. Cânticos, rezas, artes, modos de curar e de sonhar — tudo aquilo que as mulheres de antes guardaram e transmitiram, às vezes em silêncio, para que chegasse até nós.
A mulher criativa é aquela que toma posse desses fios de ouro, reata a teia interrompida e reconhece: não caminha sozinha, caminha acompanhada por um coro de vozes antigas que lhe oferecem amparo e direção.
E dentro dela, mesmo depois de tantas ruínas, ainda vive uma criança — aquela que não foi apagada pelo tempo, pelo medo ou pelo sofrimento. Essa criança é a guardiã do brincar, da ousadia de imaginar, da coragem de inventar mundos.
Ser criativa é ousar caminhar por entre os campos sombrios da alma, mesmo sem certezas.
É dar o passo ainda que a estrada não se revele inteira.
É confiar que, depois do vale escuro, haverá sempre um lago de beleza.
E, de fato, há. Porque o florescimento não é obra do acaso: é fruto de uma peregrinação corajosa.
Quem ousa atravessar suas sombras sempre reencontra a abundância da própria luz.
A mulher criativa sabe que não existe mundo perfeito para começar.
Ela cria a partir das ruínas.
Pinta sobre os escombros.
Dança no silêncio.
E inventa novas cores dentro da escuridão.
O caos é seu ventre.
O amor, o seu pincel.
A vida inteira, sua obra.
🌷 Convite
Hoje é 1º de outubro.
Permita-se um ato criativo neste mês: escrever uma carta, cantar uma canção, plantar uma semente, ousar um gesto novo.
Compartilhe este texto com uma amiga — às vezes, um simples convite pode reacender uma chama esquecida.
E venha para o próximo Passos da Alma, no dia 25 de novembro.
Um encontro para mulheres que não aceitam calar sua criatividade, porque sabem que dentro delas pulsa o poder de recriar o mundo.

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