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Don Juan DeMarco:
amor, abandono, máscaras e o risco de nos perdermos de nós mesmos
Por: Márcia Christovam (Psicóloga, Analista Junguiana e Mestra em Ciências da Religião)
Na última terça-feira, 31 de março, a Logos Cia realizou mais uma edição do já consagrado Cine Debate Logos, projeto que, desde 2008, une cinema, reflexão psicológica e autoconhecimento em encontros que convidam o público a olhar "para dentro" por meio da arte. Na ocasião, o filme apresentado foi Don Juan DeMarco, dirigido por Jeremy Leven e estrelado por Johnny Depp, Marlon Brando e Faye Dunaway. No enredo, um jovem que acredita ser Don Juan, “o maior amante do mundo”, entra em tratamento com o psiquiatra Jack Mickler, profissional experiente que está às vésperas da aposentadoria — e que, no encontro com esse paciente, também acaba sendo profundamente tocado.
O que faz de Don Juan DeMarco um filme tão especial não é apenas seu romantismo, sua beleza estética ou o carisma do personagem principal. É o fato de que ele nos permite tocar, por trás da fantasia, algumas das dores mais humanas: a dor do abandono, a fome de amor, o uso das máscaras emocionais, a distância entre aparência e verdade, e a delicada fronteira entre imaginação, defesa psíquica e ruptura com a realidade. Foi justamente por isso que esse filme retornou ao Cine Debate Logos depois de tantos anos: porque algumas obras não envelhecem; elas apenas encontram novos momentos da alma para serem compreendidas. Essa foi, inclusive, uma das chaves de leitura trazidas no encontro: a arte como linguagem reveladora do inconsciente, capaz de mobilizar em cada pessoa conteúdos íntimos que talvez ainda não tenham encontrado palavras.
Ao longo da discussão, um dos primeiros pontos destacados foi que o filme fala, com muita força, da experiência do abandono. Ainda que a narrativa do personagem seja atravessada por fantasia e confabulação, ela revela uma verdade psíquica: a do sujeito que vai sendo sucessivamente privado de vínculos confiáveis, de amparo, de amor estável. O abandono aparece na perda do primeiro amor, na morte do pai, na ausência afetiva da mãe, na fragilidade dos vínculos familiares e, sobretudo, na sensação de não ter onde repousar a própria dor. O delírio, nesse sentido, não surge apenas como extravagância; ele pode ser lido como tentativa extrema de sobrevivência de um psiquismo ferido. Foi essa a reflexão proposta no debate: a ausência de amor verdadeiro, de cuidado real e de suporte afetivo consistente pode adoecer profundamente.
Essa leitura é importante porque impede uma recepção superficial do filme. Don Juan DeMarco não é apenas a história de um sedutor encantador. É também a história de um homem que, sem encontrar sustentação amorosa suficiente na realidade, constrói uma fantasia grandiosa para não ser esmagado pelo vazio. O filme romantiza essa experiência em alguns momentos, sim, e parte da crítica da época observou exatamente essa tensão entre o delírio e sua idealização. Ainda assim, sua força está em nos fazer pensar que, por trás de certas performances sedutoras, pode existir um enorme desamparo.
Mas o filme não fala apenas da carência do jovem que se autodenomina Don Juan. Ele também fala, de forma belíssima, da secura emocional do psiquiatra Jack Mickler. E esse foi outro eixo muito precioso da discussão feita no Cine Debate. De um lado, temos um rapaz marcado pela fome de amor. De outro, temos um homem que teve êxito profissional, reconhecimento, casamento, história, estabilidade — e, ainda assim, parece ter se esvaziado de vitalidade. Não se trata da carência de quem nada recebeu, mas da aridez de quem, tendo vivido muito, foi aos poucos se afastando da própria chama. O encontro entre os dois revela algo decisivo: às vezes, a alma não adoece apenas por trauma; ela também adoece por ressecamento, automatismo e excesso de adaptação.
Há, portanto, uma reciprocidade simbólica muito rica entre os personagens. Embora o jovem esteja sob cuidado psiquiátrico, o psiquiatra também é afetado. O paciente o convoca de volta à vida. O último caso de sua carreira se torna, paradoxalmente, uma última chance de reencontro consigo mesmo.
Essa dinâmica entre o paciente e o terapeuta/médico, apresentada no filme nos faz lembrar da relação entre os arquétipos do Puer e do Senex — o jovem e o velho, o impulso vital e a maturidade, a novidade e a experiência. O filme, de fato, nos permite pensar numa relação em que a leveza, o erotismo simbólico, a fantasia e a criatividade do jovem reativam no homem envelhecido e desenergizado partes adormecidas de sua vida psíquica, enquanto a escuta, a contenção e a experiência do mais velho oferecem algum chão para a turbulência emocional do rapaz. Do ponto de vista da saúde psíquica, não se trata de escolher um em detrimento do outro, mas de buscar uma integração mais viva entre ambos: conservar a capacidade de encantamento, movimento e criação do Puer, sem perder a consistência, a responsabilidade e a sabedoria do Senex. É justamente dessa conversa interna entre frescor e profundidade, desejo e limite, impulso e direção, que nasce uma vida mais inteira, mais consciente e mais saudável.
Ainda assim, talvez o mais bonito em Don Juan DeMarco seja que ele não nos convida apenas a pensar em arquétipos abstratos, mas em perguntas muito concretas. Durante o debate, uma delas emergiu com força: quem ou o que tem sido oásis na nossa vida? O que, em meio ao cansaço, à dureza e às demandas do cotidiano, ainda nos devolve presença, prazer e sentido? O filme sugere que, sem espaços de amor, beleza, encontro e encantamento, alguma parte de nós vai morrendo em silêncio. E essa talvez seja uma das reflexões mais urgentes do nosso tempo: não basta sobreviver. É preciso encontrar lugares, pessoas, práticas e experiências que devolvam a sensação de estar vivo.
Nesse ponto, a discussão avançou para uma dimensão muito cara à psicologia analítica: a diferença entre o ego adaptado e o Self, entendido como centro mais profundo da totalidade psíquica. Foi lembrado no encontro que, quando nos afastamos demais de nós mesmos, a vida começa a falar por linguagens cada vez mais fortes. Às vezes, primeiro em forma de incômodo; depois, de angústia; depois, de adoecimento; depois, até de somatização. A leitura proposta foi que o psiquismo ( o Self) busca, de algum modo, reconduzir a pessoa ao alinhamento. Nem sempre escutamos no começo. E, quando não escutamos, o corpo, o sintoma ou uma crise podem passar a dizer por nós aquilo que vínhamos evitando ver.
Outro momento especialmente tocante da análise foi a lembrança da cena em que o psiquiatra diz à esposa, em essência, que não quer apenas saber da rotina, das “xícaras sujas”, mas quer saber quem ela é. Essa cena foi lida como uma convocação ao encontro verdadeiro. Quantos relacionamentos sobrevivem na superfície? Quantas vezes convivemos anos com alguém sem voltar a perguntar por seus sonhos, seus medos, seus desejos, sua verdade? Mas a reflexão não parou no campo amoroso. Ela foi trazida para dentro: você já se perguntou quem você é, para além das funções que exerce? Já se olhou com curiosidade genuína? Já perguntou a si mesma quais desejos abandonou no meio do caminho? Esta talvez seja uma das maiores provocações que o filme nos deixa.
Para além do filme, vale lembrar o quanto o mito de Don Juan atravessa nosso imaginário e permanece vivo em nossa cultura. Nascido na tradição literária espanhola, ele foi sendo retomado, recriado e ressignificado ao longo dos séculos em múltiplas formas de arte. Isso nos ajuda a perceber que Don Juan não é apenas um personagem; é um símbolo recorrente porque encarna dilemas profundamente humanos: desejo, sedução, busca de completude, voracidade afetiva, erotismo, ilusão e vazio. O filme brinca com essa herança, mas também a desloca: o Don Juan de Johnny Depp não é o conquistador clássico que seduz e abandona. Ao contrário, ele aparece como alguém que idealiza o amor de forma quase absoluta. E é justamente aí que reside sua singularidade e sua fragilidade: trata-se de um Don Juan “diferente”, que ama demais, fantasia demais, acredita demais — e que, por isso mesmo, se torna mais exposto à dor da perda e ao colapso diante da ruptura.
Daí entramos em outro eixo precioso: a máscara. No filme, a máscara usada por Don Juan não é mero adereço. Ela é símbolo. Durante a conversa, ela foi lida como expressão de vergonha, defesa, proteção e também personagem. A máscara oculta, mas também organiza. Ela protege o sujeito de algo que ele teme não conseguir sustentar sem ela. E esse é um ponto de enorme potência clínica: todos nós usamos máscaras. A máscara da fortaleza, da indiferença, da competência infalível, da boa cuidadora, do sujeito que sempre dá conta, do palhaço que faz todos rirem enquanto sangra por dentro. A questão não é abolir toda máscara — isso seria impossível e até adoecedor. A questão é perceber quando deixamos de usar a máscara e passamos a ser usados por ela.
Essa formulação apareceu com muita força no debate e merece ser guardada: existem máscaras protetivas, necessárias à vida social. Em linguagem junguiana, poderíamos pensá-las na proximidade da persona; em diálogo com perspectivas existenciais, elas podem ser lidas como modos de presença ajustados às exigências do mundo. O problema começa quando a máscara se torna prisão, quando o papel devora a pessoa, quando a função sufoca a alma. Nesse ponto, o filme deixa de ser apenas sobre um paciente psiquiátrico e passa a ser sobre todos nós. Quais máscaras ainda servem? Quais já adoecem? Quais escondem dores que precisam, finalmente, ser olhadas?
O encontro também fez uma diferença importante entre o Don Juan como símbolo de prazer e vitalidade e a chamada síndrome do Don Juan, compreendida em seu aspecto patológico: o conquistador crônico, sedutor, raso, que se interessa apenas pelo jogo da conquista e perde o encanto quando a intimidade real começa. Essa distinção é valiosa. Porque, simbolicamente, “encontrar o nosso Don Juan” não significa buscar um homem idealizado ou repetir um roteiro romântico. Significa encontrar, em nós ou na vida, um espaço onde o prazer, o encantamento, a presença e o amor voltem a circular. No próprio debate, isso foi associado à dança, ao movimento, aos espaços terapêuticos e aos encontros humanos que restauram o sentir. O prazer, aqui, não aparece como frivolidade, mas como força de cura.
Talvez por isso o filme toque tanta gente. Porque ele nos lembra de algo que a vida adulta frequentemente tenta domesticar: o ser humano não vive só de funcionalidade. Não basta cumprir papéis, pagar contas, sustentar agendas e responder a demandas externas. Sem beleza, sem desejo, sem encontro e sem verdade emocional, a vida pode até continuar de pé, mas por dentro vai secando. Don Juan DeMarco fala dessa secura e também da possibilidade de reencantamento. Não um reencantamento ingênuo, alienado ou delirante, mas aquele que nasce quando voltamos a sentir, a nos escutar, a buscar o que tem sentido e a reconhecer nossas faltas sem mascará-las demais.
É nesse ponto que o filme encontra, de maneira muito bonita, a proposta do Cine Debate Logos. O projeto não é apenas um espaço para assistir a bons filmes. Ele é um espaço de cuidado. Um espaço em que a arte se transforma em espelho, linguagem e disparador de cura. Na discussão do dia 31 de março, isso ficou evidente: o cinema foi usado não para explicar a vida, mas para abri-la; não para encaixotar a experiência humana em diagnósticos frios, mas para permitir que cada pessoa se interrogasse a partir do que viu e sentiu.
No fim, talvez a pergunta mais poderosa que Don Juan DeMarco nos deixa não seja “ele era louco ou não?”. Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que em nós tem vivido de fantasia porque não encontrou amor suficiente na realidade? E, junto dela, uma segunda: quais máscaras usamos para sobreviver e quais já estão nos afastando de nós mesmos?
Essas perguntas não pedem respostas apressadas. Pedem presença. Pedem honestidade. Pedem coragem.
Porque, às vezes, tudo o que uma alma precisa para não adoecer mais é encontrar um espaço onde possa ser vista de verdade.
Com carinho e coragem…
Márcia Christovam
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