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Quando a mulher domesticada demais precisa reencontrar seus instintos
Uma reflexão sobre maternidade, identidade, culpa e o retorno ao corpo que sabe
Artigo escrito por Márcia Christovam
Há filmes que a gente assiste.
E há filmes que nos assistem.
Eles ficam ali, olhando para dentro da gente, atravessando nossas justificativas, nossos discursos bonitos, nossas culpas bem-comportadas, nossos papéis sociais tão ensaiados, até encontrar aquele ponto onde a alma já estava cansada demais para continuar fingindo.
Canina, dirigido por Marielle Heller e estrelado por Amy Adams, parte de uma premissa aparentemente absurda: uma mulher, depois de interromper sua carreira artística para se dedicar integralmente ao filho pequeno, começa a acreditar que está se transformando em uma cadela.
Mas, como quase sempre acontece com os bons filmes, a história não é sobre aquilo que parece ser.
Canina não é, essencialmente, um filme sobre uma mulher que vira cachorro.
É sobre uma mulher que foi domesticada demais.
Domesticada pela maternidade idealizada.
Domesticada pelo casamento.
Domesticada pela culpa.
Domesticada pela imagem da boa mulher, da boa mãe, da mulher equilibrada, da mulher que dá conta, da mulher que não reclama, da mulher que ama tanto que não pode desejar fugir.
E talvez seja justamente por isso que o filme mexa tanto.
Porque, em algum nível, todos nós conhecemos essa experiência: a de amar algo profundamente e, ao mesmo tempo, sentir que estamos desaparecendo dentro daquilo que amamos.
No Cine Debate Logos, essa foi uma das primeiras percepções que emergiram na fala dos participantes: o filme é forte porque “a gente vai se vendo”. E essa identificação não se limita às mães. Ali, ficou muito claro que todos nós, mulheres e homens, em algum momento, fazemos a maternagem de alguma coisa: de filhos, de projetos, de relações, de empresas, de famílias, de sonhos, de pessoas que amamos, de papéis que assumimos.
E, muitas vezes, nos dedicamos tanto que vamos nos afastando da essência, até já não sabermos mais onde terminam nossas escolhas e onde começam as obrigações que nos engoliram.
A mulher antes da mãe: para onde ela foi?
Uma das perguntas mais fortes que Canina nos obriga a fazer é:
Quem era essa mulher antes da maternidade?
Antes do filho…
Antes da rotina…
Antes dos brinquedos espalhados…
Antes da exaustão…
Antes do corpo permanentemente disponível…
Antes de ela ser chamada o tempo todo…
Antes de tudo nela virar função…
A protagonista era artista. Criadora. Desejante. Alguém com obra, corpo, ambição, voz, circulação no mundo. Mas, em algum momento, essa mulher foi sendo colocada entre parênteses.
Nossa cultura ainda tem uma dificuldade enorme de permitir que uma mãe continue sendo pessoa.
É como se a maternidade autorizasse uma transformação, que exige pra si um apagamento: abrir mão da identidade anterior. Não se trata se somar: "agora também sou mãe”. Mas de subtrair: “Agora não posso mais ser…"
Transformar-se é inevitável. Toda experiência profunda nos transforma. Um filho transforma. Um amor transforma. Uma perda transforma. Uma escolha profissional transforma. Uma doença transforma.
A questão não é mudar.
A questão é deixar desaparecer partes essenciais.
No debate, essa imagem apareceu com muita força: a maternidade muda a mulher, mas no filme vemos algo além da mudança. Vemos uma interrupção. Um apagamento da identidade. Tudo aquilo que ela era antes parece sumir como uma mágica terrível, como se a mulher anterior tivesse sido desautorizada a continuar existindo.
E aqui talvez esteja uma das dores mais silenciosas da maternidade contemporânea:
A mulher não quer necessariamente voltar a ser quem era antes.
Ela sabe que isso talvez nem seja possível.
O que ela quer é não precisar matar todas as suas versões anteriores para provar que ama o filho.
Porque há uma diferença imensa entre amadurecer e se anular.
Há uma diferença imensa entre se transformar e se perder.
O mito do amor materno e a armadilha da idealização
A cultura construiu, ao longo do tempo, uma imagem quase sagrada da maternidade.
A mãe como fonte inesgotável.
A mãe como doação pura.
A mãe como amor absoluto.
A mãe como presença permanente.
A mãe como aquela que sempre sabe, sempre aguenta, sempre volta, sempre suporta, sempre perdoa.
Mas talvez uma das grandes contribuições de Élisabeth Badinter, em sua crítica ao mito do amor materno, tenha sido justamente retirar essa experiência do campo da natureza absoluta e recolocá-la no campo da história, da cultura e das exigências sociais.
Isso não diminui o amor de uma mãe.
Ao contrário.
Devolve humanidade a ele.
Porque um amor que só pode existir sem cansaço, sem raiva, sem ambivalência, sem conflito, sem desejo de pausa e sem direito ao limite não é amor humano.
É exigência impossível.
E exigências impossíveis adoecem.
Quando transformamos o amor materno em verdade absoluta, pura, instintiva e permanente, criamos uma armadilha psíquica e social. A mãe passa a não ter direito ao cansaço. Não tem direito à raiva. Não tem direito ao arrependimento momentâneo. Não tem direito à vontade de ficar sozinha. Não tem direito à saudade de si. Não tem direito ao próprio corpo. Não tem direito ao próprio prazer.
E então a culpa aparece como coleira.
No debate, essa metáfora surgiu de forma muito potente: se o cachorro, quando tomado pelo instinto, precisa de uma coleira, a maternidade também cria suas coleiras simbólicas.
E uma das mais fortes é a culpa.
A culpa segura.
A culpa limita.
A culpa enforca.
A culpa disciplina.
A culpa diz:
“Não sinta isso.”
“Não pense isso.”
“Não fale isso.”
“Não deseje isso.”
“Não durma se contratou uma babá.”
“Não deixe o trabalho te roubar dos seus filhos.”
“Não fique em casa demais.”
“Não tenha sucesso demais.”
“Não fracasse.”
“Não erre.”
E o problema é que, para onde quer que a mãe vá, haverá julgamento.
Se fica em casa, alguém fala.
Se trabalha, alguém fala.
Se coloca a criança na creche, alguém fala.
Se contrata babá, alguém fala.
Se se dedica integralmente, alguém fala.
Se preserva uma parte de si, alguém fala.
Então, em algum momento, a mulher precisa fazer uma pergunta muito séria:
Eu vou viver a minha maternidade tentando calar o mundo
ou tentando escutar a minha verdade?
Porque o mundo não cala.
E a culpa só começará a perder força quando deixarmos de usá-la como bússola.
A mãe suficientemente boa não é uma mãe sacrificada até a morte
Aqui, a clínica de Winnicott nos oferece uma das ideias mais libertadoras da psicologia: a criança não precisa de uma mãe perfeita. Precisa de uma mãe suficientemente boa.
Essa expressão, tantas vezes repetida, às vezes perde sua força revolucionária.
Mas ela é revolucionária.
Porque a mãe suficientemente boa não é a mãe impecável. Não é a mãe sem falhas. Não é a mãe sempre disponível, sempre calma, sempre terna, sempre organizada, sempre emocionalmente estável.
É uma mãe real.
Uma mãe que sustenta.
Que acolhe.
Que se adapta.
Que se cansa.
Que falha.
Que tenta reparar.
Que, pouco a pouco, permite que a criança também encontre o mundo e suporte pequenas frustrações.
Essa ideia desloca a maternidade do altar.
A mãe não precisa ser santa.
Não precisa ser imaculada.
Não precisa ser inesgotável.
Não precisa tirar tudo de si para provar amor.
E talvez seja aqui que Canina se torne tão incômodo: porque ele mostra uma mãe que não cabe na imagem idealizada da maternidade.
Ela ama o filho, mas está exausta.
Ela cuida, mas sente raiva.
Ela está presente, mas sente falta de si.
Ela quer dar conta, mas há algo nela que começa a uivar.
A cultura costuma suportar melhor a mãe deprimida do que a mãe raivosa.
Suporta melhor a mãe culpada do que a mãe desejante.
Suporta melhor a mãe sacrificada do que a mãe viva.
Mas uma mãe viva não é uma mãe que nunca se irrita. Uma mãe viva é uma mulher que ainda tem contato com o próprio corpo, com seus limites, com sua sexualidade, com sua fome, com seu território, com seus desejos, com sua arte, com sua raiva e com sua ternura.
Uma mãe mortificada por dentro pode até parecer mais adequada socialmente.
Mas a que custo?
A criança não precisa de uma mãe sacrificada até a morte.
Precisa de uma mãe viva o suficiente para estar inteira na relação.
A cadela como retorno ao instinto
A transformação da protagonista em cadela não deve ser lida apenas como degradação.
Pelo contrário.
Simbolicamente, ela pode ser lida como um retorno.
Um retorno ao faro.
Ao corpo.
Ao território.
À fome.
À raiva.
À sexualidade.
À liberdade.
Ao direito de correr.
Ao direito de farejar a própria vida.
No debate, essa leitura apareceu de maneira preciosa: quando o instinto materno chega, por que todos os outros instintos precisariam sair pela porta dos fundos?
A maternidade traz um instinto, sim. Mas ela não deveria expulsar todos os outros.
A mulher não deixa de ter corpo porque virou mãe.
Não deixa de ter desejo.
Não deixa de precisar de descanso.
Não deixa de ter raiva.
Não deixa de ter necessidade de prazer, de criação, de solidão, de beleza, de erotismo, de silêncio, de conversas de adultos, de mundo.
Na perspectiva junguiana, aquilo que a consciência não reconhece não desaparece. Vai para a sombra, que é um espaço totalmente inconsciente para o individuo. E tudo aquilo que permanece tempo demais na sombra tende a retornar, mas geralmente virá de forma abrupta, desorganizada, sintomática e por vezes até assustadora.
Nesse sentido, a cadela do filme pode ser compreendida como uma imagem simbólica da sombra instintiva dessa mulher: tudo aquilo que ela precisou negar para caber no papel da boa mãe, da boa esposa, da mulher domesticada, começa a voltar pelo corpo.
É isso que o filme parece gritar.
Quando a mulher não pode dizer “estou cansada”, o corpo diz.
Quando ela não pode dizer “estou com raiva”, o instinto diz.
Quando ela não pode dizer “eu quero fugir”, a fantasia diz.
Quando ela não pode dizer “eu ainda existo”, a cadela aparece.
E aqui há uma diferença fundamental:
Integrar o instinto não é se tornar selvagem de modo destrutivo.
É reconhecer que aquilo que é animal/primitivo em nós também é parte da nossa sabedoria.
O problema não está no instinto.
O problema está no instinto abandonado por tempo demais.
Porque, quando a gente não escuta o instinto enquanto ele ainda é sussurro, ele pode precisar virar grito.
Écuba, a dor e a mulher que vira cadela
Durante o Cine Debate, apareceu uma ponte mitológica muito rica: Écuba, rainha de Tróia, mãe de Heitor e Páris.
Depois da destruição de Tróia, da perda do marido, dos filhos, do reino e de tudo aquilo que sustentava sua identidade, a dor de Écuba é tão dilacerante que algumas tradições míticas narram sua transformação em cadela.
Essa imagem é brutal.
E é belíssima.
Porque a cadela, diferente da loba, ainda mantém uma relação com a casa.
A loba é o selvagem completo, a floresta, a ruptura.
A cadela é o instinto que ainda circula perto da casa, perto do vínculo, perto do território doméstico. Ela não abandonou completamente o mundo humano. Mas também não aceita mais ser apenas domesticada.
Aqui, a lembrança de Clarissa Pinkola Estés se aproxima quase naturalmente. Em Mulheres que Correm com os Lobos, ela trabalha a imagem da mulher selvagem como essa dimensão profunda, intuitiva e instintiva do feminino que a cultura frequentemente tenta domesticar. Embora o filme trabalhe com a imagem da cadela, e não da loba, a aproximação simbólica é inevitável: há uma mulher instintiva tentando voltar à superfície.
No debate, essa leitura ganhou uma formulação muito forte:
A mulher precisa se tornar cadela quando se afasta demais de quem ela é de verdade.
Quando perde sua essência.
Quando a dor de perder tudo é tão intensa que o retorno ao instinto se torna uma tentativa de sobrevivência.
Isso muda tudo.
Porque, nesse sentido, virar cadela não é necessariamente enlouquecer.
Pode ser uma forma simbólica de voltar.
Voltar ao corpo.
Voltar ao cheiro das coisas.
Voltar ao próprio limite.
Voltar ao “não”.
Voltar ao “isso aqui é meu”.
Voltar ao “eu também preciso”.
Voltar ao “eu não preciso dar conta sozinha”.
Voltar ao “eu existo”.
A pergunta, então, não é apenas: “por que ela virou cadela?”
A pergunta é:
Quanto de si uma mulher precisa perder até que o corpo encontre uma forma radical de trazê-la de volta?
A solidão de quem cuida
Um dos pontos mais tocantes do filme é a solidão.
Não uma solidão bonita, filosófica, escolhida, fértil. Não aquela solitude que nos permite pensar, rezar, criar, nos conhecer.
Mas a solidão com gosto de abandono.
A solidão de quem cuida de todo mundo e, quando olha ao redor, se pergunta:
Quem cuida de mim?
Essa foi uma das grandes viradas da discussão: a questão central não é apenas o tamanho do desafio da maternidade. O filho pode ter dois anos ou vinte. Pode ter saído da barriga ou chegado por outro caminho. Pode ser um projeto, uma mãe idosa, uma família inteira, uma empresa, uma equipe, uma relação.
O ponto central é o quanto a pessoa que cuida vai se desamparando no processo.
A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, nos ensinou a olhar para a importância de uma base segura: a criança precisa sentir que há alguém disponível, confiável e afetivamente presente para que possa explorar o mundo. Mas Canina nos obriga a inverter a pergunta:
Qual é a base segura da mãe?
Para onde ela volta?
Em quem ela encosta?
Quem sustenta a mulher que sustenta?
Quem percebe quando ela está sumindo?
Quem pergunta não apenas “como está a criança?”, mas “como está você?”
Há algo profundamente adoecedor em uma cultura que exige cuidado de quem não é cuidado.
E há algo profundamente injusto em romantizar a sobrecarga como se ela fosse prova de amor.
Porque quem sustenta também precisa ser sustentado.
Quem acolhe também precisa ser acolhido.
Quem cuida também precisa ter para onde voltar.
“Eu morri quando dei à luz”: quando a alma perde sensibilidade
Uma das falas que mais impactaram o grupo foi a ideia de morrer na maternidade.
Não morrer fisicamente, mas morrer simbolicamente.
Morrer como sujeito.
Morrer como mulher desejante.
Morrer como artista.
Morrer como alguém que tinha ritmo, gosto, vaidade, projeto, voz própria.
Durante o debate, essa dor foi comparada à perda de sensibilidade: como se o psiquismo, exposto a uma intensidade grande demais, parasse de sentir.
A alma queima, mas a pessoa já não percebe.
A vida aperta, mas a pessoa segue funcionando.
O fogo está ali, mas a sensibilidade se perdeu.
Isso é muito sério.
Porque muitas pessoas não percebem que estão adoecendo enquanto ainda conseguem cumprir tarefas.
Adoecem sendo eficientes.
Adoecem sendo responsáveis.
Adoecem sendo fortes.
Adoecem dando conta.
Adoecem sorrindo no jantar.
Adoecem dizendo “está tudo bem!”.
Adoecem porque o mundo aplaude quem não incomoda.
Mas o sintoma sempre encontra uma fresta.
Em Canina, a fresta é o corpo. O corpo começa a denunciar aquilo que a personagem ainda não consegue elaborar pela palavra.
E, nesse sentido, o filme conversa com uma ideia fundamental da clínica: aquilo que não encontra elaboração psíquica pode aparecer no corpo, no comportamento, no sonho, na fantasia, no sintoma.
A cadela é o sintoma.
Mas também é a mensageira.
Ela mostra aquilo que a mulher não conseguia mais dizer.
Mostra o cansaço.
Mostra a fome.
Mostra a raiva.
Mostra o desejo.
Mostra a vida tentando voltar.
A raiva como sinal de vida
Talvez uma das coisas mais difíceis de admitir seja que a raiva também pode ser uma força de saúde.
Não a violência.
Não a agressão destrutiva.
Não o descontrole.
Mas a raiva como informação.
A raiva que diz: “passaram do meu limite”.
A raiva que diz: “eu estou exausta”.
A raiva que diz: “isso não está justo”.
A raiva que diz: “eu não aguento mais ser invisível”.
A raiva que diz: “eu preciso voltar para mim”.
A raiva que dá espaço para a indignação se manifestar e para os limites serem colocados com clareza!
A psicanálise kleiniana nos ajuda a compreender que amor e agressividade não são necessariamente opostos absolutos. A vida psíquica é feita de ambivalências. Cuidado e irritação, ternura e raiva, desejo de proximidade e desejo de distância podem coexistir nas relações mais importantes.
Isso é especialmente precioso quando falamos de maternidade, porque talvez uma das maiores violências simbólicas contra as mães seja exigir delas um amor sem sombra.
Mas amor sem sombra não é amor humano. É imagem idealizada.
E imagens idealizadas cobram caro.
Uma mãe pode amar profundamente e, ainda assim, sentir vontade de sumir por algumas horas.
Pode amar e sentir raiva.
Pode amar e desejar silêncio.
Pode amar e precisar trabalhar.
Pode amar e querer voltar a criar algo só seu, em esferas fora da maternidade.
Pode amar e não querer dividir tudo.
Pode amar e dizer: “Esse bombom é meu e vou comer sozinha!”
Isso não destrói a maternidade.
Isso devolve humanidade a ela.
A raiva, quando escutada com consciência, pode ser um sinal de limite.
O problema não é sentir raiva.
O problema é ter sido ensinada a escondê-la até que ela precise virar explosão.
O casamento, os papéis e os desconhecidos na mesma casa
O filme também toca em outra ferida: a relação conjugal depois da maternidade.
Há um momento em que marido e mulher parecem já não se reconhecer. E isso é muito comum. Não porque o amor necessariamente acabou, mas porque os papéis engoliram os sujeitos.
Ele já não sabe quem ela é.
Ela já não sabe como pedir ajuda.
Os dois estão cansados.
Os dois estão frustrados.
Os dois se sentem sozinhos.
E, muitas vezes, a casa vai se tornando um lugar habitado por desconhecidos funcionais: pessoas que dividem contas, tarefas, criança, rotina, mas já não dividem verdade.
No debate, apareceu uma imagem muito forte:
Dois desconhecidos dormindo na mesma cama.
Essa imagem é dura porque é verdadeira.
A intimidade não morre apenas quando acaba o desejo.
Ela morre quando a palavra desaparece.
Quando ninguém mais pede.
Quando ninguém mais confessa.
Quando um espera que o outro adivinhe.
Quando a mulher veste a máscara da 'mulher maravilha' e se recusa a dizer que precisa.
Quando o homem se sente sem lugar de fala.
Quando ambos vão acumulando ressentimentos em silêncio.
E então o instinto vaza por onde consegue.
Às vezes como explosão.
Às vezes como afastamento.
Às vezes como sintoma.
Às vezes como traição.
Às vezes como frieza.
Às vezes como compulsão.
Às vezes como uma cadela correndo pela noite.
A mãe sempre volta — mas quem volta para a mãe?
Há uma frase do filme que tocou o grupo:
A mãe sempre volta.
É uma frase bonita.
Mas também perigosa.
Porque pode ser lida como garantia de amor, mas também como sentença de aprisionamento.
A mãe sempre volta.
Volta da exaustão.
Volta do banho interrompido.
Volta do sono quebrado.
Volta do trabalho.
Volta da culpa.
Volta da vontade de fugir.
Volta da pequena liberdade que conseguiu roubar para si.
Volta porque ama.
Volta porque é chamada.
Volta porque precisa.
Volta porque esperam que volte.
Mas a pergunta que o filme deixa ecoando é outra:
Quando a mãe volta, ela volta inteira?
Ou volta faltando pedaços?
Volta com o corpo presente e a alma anestesiada?
Volta com amor, mas sem desejo?
Volta com cuidado, mas sem alegria?
Volta com função, mas sem identidade?
Talvez o caminho não seja impedir a mãe de ir.
Talvez o caminho seja permitir que ela vá um pouco para poder voltar viva.
Porque, às vezes, uma pequena liberdade salva uma mulher de uma grande ruptura.
Às vezes, uma noite de sono salva.
Uma babá salva.
Uma conversa salva.
Uma viagem salva.
Uma dança salva.
Um grupo salva.
Uma sessão de terapia salva.
Um filme salva.
Uma pergunta salva.
Um “eu não dou conta sozinha” salva.
Um “hoje eu preciso de mim” salva.
O que Canina nos pergunta
No fundo, Canina não está perguntando se uma mulher pode ter um surto psicótico a ponto de se ver e agir como cadela.
Está perguntando coisas muito mais difíceis:
Algumas dessas perguntas podem parecer duras demais.
Mas talvez seja uma pergunta de salvação!
Porque, se eu percebo que estou me afastando de mim, ainda posso voltar antes de adoecer.
Se eu reconheço minha raiva, não preciso explodir.
Se eu reconheço meu cansaço, não preciso colapsar.
Se eu reconheço minha fome, não preciso devorar o mundo.
Se eu reconheço meu desejo, não preciso traí-lo em silêncio.
Se eu reconheço meu instinto, não preciso ser possuída por ele.
Talvez o verdadeiro final feliz de Canina não esteja em domesticar novamente a mulher.
Não está em fazê-la pedir desculpas por ter enlouquecido.
Não está em colocá-la de volta no lugar da mãe dócil, funcional, silenciosa.
O final feliz possível está em integrar.
Ela não precisa escolher entre ser mãe e ser artista.
Entre ser mulher e ser cuidadora.
Entre ser instinto e ser civilização.
Entre amar o filho e amar a si mesma.
Entre voltar para casa e correr pela noite.
Essa é a grande beleza simbólica do filme: a cadela não vem para destruir a mulher. Vem para devolver a ela uma parte perdida.
E talvez seja isso que toda experiência profunda de autoconhecimento faz.
Ela não nos torna outra pessoa.
Ela nos devolve partes nossas que tinham sido exiladas.
Deixar-se cuidar: o parto simbólico da mulher forte
Um dos momentos mais profundos trazidos no Cine Debate foi possivelmente minha narrativa pessoal da experiência que vivi em uma caverna na ilha Rapa Nui.
A experiência de estar diante de uma saída estreita, tendo que confiar que um homem conseguiriam puxar meu corpo para fora, e de como esse momento tornou-se uma imagem poderosa de renascimento, às vésperas no meu aniversário em 2024.
Não era apenas sobre subir.
Era sobre confiar.
Era sobre perceber meu grande drama:
“Eu acho que ninguém dá conta de mim.”
E essa frase talvez atravesse muitas pessoas que aprendeam a ser fortes.
Muitas mães.
Muitas cuidadoras.
Muitos homens também.
Pessoas que aprenderam cedo demais a sustentar, resolver, proteger, organizar, decidir, cuidar. Pessoas que se tornaram tão competentes em dar conta que já não sabem mais ser amparadas.
Mas ninguém nasce de novo sem algum tipo de entrega.
Ninguém sai da caverna apenas pela própria força.
Em algum momento, é preciso dar a mão.
E talvez esse seja um dos pontos mais profundos de Canina: a protagonista não precisa apenas reencontrar sua força animal.
Ela precisa também reencontrar a possibilidade de vínculo.
Porque instinto sem vínculo vira destruição.
Mas vínculo sem instinto vira domesticação.
A cura talvez esteja na integração.
Ser corpo e ser palavra.
Ser mãe e ser mulher.
Ser cuidadora e ser cuidada.
Ser casa e ser floresta.
Ser ternura e ser limite.
Ser amor e ser verdade.
Talvez Canina seja isso: um chamado estranho.
Um uivo.
Um desconforto.
Uma provocação.
Um espelho.
Uma mulher correndo pela noite para lembrar às outras que ainda há instinto debaixo da culpa.
Ainda há faro debaixo da obediência.
Ainda há desejo debaixo da função.
Ainda há vida debaixo do cansaço.
Mas talvez o retorno a si não aconteça apenas quando corremos livres pela noite.
Talvez aconteça também quando, depois de tanto dar conta, aceitamos estender a mão.
Quando permitimos que alguém nos puxe para fora da caverna.
Quando deixamos de confundir força com solidão.
Quando descobrimos que ser inteira não é ser invulnerável.
É poder sentir.
Poder pedir.
Poder cair.
Poder ser sustentada.
Poder voltar.
Poder nascer de novo.
E talvez a pergunta final não seja:
“O que há de errado com essa mulher?”
Mas sim:
O que há de tão vivo nela que se recusou a morrer em silêncio?
Às vezes, aquilo que chamamos de loucura é apenas a última tentativa da alma de voltar para casa.
E, às vezes, voltar para casa começa quando finalmente aceitamos que alguém nos ajude a sair da caverna.
Referências que atravessam esta leitura
Para quem deseja aprofundar algumas das ideias que dialogam com esta reflexão:
Élisabeth Badinter — o Mito do Amor Materno
D. W. Winnicott — conceitos de mãe suficientemente boa, holding e ambiente facilitador
Carl Gustav Jung — sombra, instinto, símbolos e processo de individuação
John Bowlby — teoria do apego e base segura
Melanie Klein — ambivalência afetiva, amor, agressividade e mundo interno
Clarissa Pinkola Estés — o feminino instintivo
Curadoria bibliográfica:
Se você deseja aprofundar os temas ligados a maternidade, a culpa e ao feminino instintivo, deixo algumas sugestões de leitura e referências que inspiram esta reflexão, e junto a elas um comentário sobre o que poderá encontrar em cada obra assim como seu grau de complexidade.
Élisabeth Badinter — Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno
Uma leitura importante para questionar a idealização da maternidade e compreender como o amor materno também é atravessado por construções históricas, culturais e sociais.
Clarissa Pinkola Estés — Mulheres que Correm com os Lobos
Uma obra simbólica e potente sobre o feminino instintivo, a intuição, a natureza selvagem da mulher e o reencontro com partes profundas de si mesma.
A partir daqui são livros de teóricos das bases da Psicologia enquanto ciência, e portanto leituras mais densas e discussões teóricas mais aprofundadas.
D. W. Winnicott — Os Bebês e Suas Mães
Este livro é uma das portas de entrada mais interessantes para o tema da maternagem em Winnicott. Ele trabalha ideias como cuidado, ambiente, dependência inicial e a presença da mãe real, não perfeita. A Ubu Editora destaca Winnicott por conceitos como “mãe suficientemente boa”, “verdadeiro e falso self” e “objeto transicional”.
D. W. Winnicott — Tudo Começa em Casa
Também é uma boa indicação, porque tem um tom mais ensaístico e acessível em vários trechos. Ajuda a pensar infância, ambiente familiar, amadurecimento emocional e o papel das relações no desenvolvimento.
John Bowlby — Uma Base Segura: Aplicações Clínicas da Teoria do Apego
A obra reúne palestras de Bowlby e apresenta a importância das primeiras relações de cuidado para o desenvolvimento emocional, social e intelectual da criança.
Carl Gustav Jung — O Eu e o Inconsciente
Para quem quiser compreender melhor sombra, inconsciente, integração psíquica e processo de individuação, esta é uma boa entrada. É mais teórico do que Clarissa Estés, mas ainda pode dialogar bem com leitores interessados em autoconhecimento.
Carl Gustav Jung — O Homem e seus Símbolos
É mais acessível e ajuda o leitor a entender a linguagem simbólica, os sonhos, as imagens arquetípicas e a forma como o inconsciente se expressa.
Melanie Klein — Amor, Culpa e Reparação
Aqui entramos em uma leitura mais psicanalítica. A obra ajuda a pensar ambivalência, culpa, agressividade, amor e reparação — conceitos muito pertinentes para a reflexão sobre maternidade real, amor imperfeito e sentimentos contraditórios.
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