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Deméter e a Mulher que Precisa Voltar para Si - Uma reflexão para o Dia das Mães

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Deméter e a Mulher que Precisa Voltar para Si

- Uma reflexão para o Dia das Mães

Por: Márcia Christovam

 

Há datas que chegam vestidas de flores, mensagens bonitas e fotografias sorridentes.

O Dia das Mães é uma delas.

Mas, por trás das flores, há também histórias que nem sempre cabem nos cartões.

Há mulheres que celebram.
Há mulheres que sentem saudade.
Há mulheres que cuidam em silêncio.
Há mulheres que carregam culpas antigas.
Há mulheres que foram mães antes de estarem prontas.
Há mulheres que desejaram ser mães e não foram.
Há mulheres que maternam filhos, alunos, pacientes, sobrinhos, projetos, famílias inteiras.
Há mulheres que ainda buscam, dentro de si, uma mãe que nunca tiveram.

E há também aquelas que, depois de tanto cuidar, começam a ouvir uma pergunta delicada, quase sussurrada pela alma:

“E você, minha filha, quem tem sido para si mesma?”

Hoje, no Dia das Mães, pensei em Deméter.

Não apenas como o símbolo da fertilidade, da colheita e da terra generosa.

Pensei em Deméter como símbolo de uma mulher que ama profundamente.
Uma mulher que nutre.
Uma mulher que sustenta a vida.
Uma mulher que oferece alimento, presença, colo e continuidade.

Mas também pensei em Deméter como a mulher que se perde quando aquilo que ama se afasta.

E talvez seja por isso que seu mito continue tão vivo.

Porque ele não fala apenas de uma deusa grega antiga.

Ele fala de nós.

 

A mãe da terra fértil

Na mitologia grega, Deméter é a grande mãe da terra cultivada.

Ela rege os grãos, os ciclos da natureza, a fertilidade dos campos, a colheita, o pão que chega à mesa.

Onde Deméter passa, a vida floresce.

A terra acolhe a semente.
As sementes germinam.
O alimento nasce.
O mundo se torna habitável.

Deméter é, portanto, a imagem da mãe nutridora.

Aquela que alimenta não apenas o corpo, mas a alma.
Aquela que cuida para que a vida continue.
Aquela que se oferece como solo para que outros possam crescer.

E aqui já encontramos uma primeira verdade simbólica:

Toda maternidade, em alguma medida, é uma forma de terra.

A mãe é chão.
É raiz.
É abrigo.
É lugar de retorno.

Mesmo quando falha, mesmo quando se cansa, mesmo quando não sabe como fazer, a função materna toca esse mistério profundo: oferecer algum tipo de sustentação para que a vida possa seguir.

Mas o mito de Deméter não se limita à abundância.

Ele também nos mostra o inverno.

 

Quando Perséfone parte

Perséfone, filha de Deméter, é raptada.

E, quando isso acontece, Deméter entra em luto.

Ela procura.
Ela chama.
Ela sofre.
Ela se revolta.
Ela abandona sua função de fertilizar o mundo.

A terra seca.

Nada brota.
Nada floresce.
Nada amadurece.

O sofrimento da mãe se torna paisagem árida e sem vida.

E talvez aqui esteja uma das imagens mais fortes do mito:

Quando a mulher abandona a si mesma, sua terra interior também começa a secar.

Deméter perde a filha, mas também perde o eixo.
Perde a alegria.
Perde o sentido.
Perde o contato com a própria potência criadora.

Ela, que alimentava o mundo, já não consegue alimentar a vida.

E quantas mulheres conhecem esse lugar?

Não necessariamente pela perda literal de um filho, mas pelas muitas formas de separação que a vida impõe.

Quando os filhos crescem.
Quando já não cabem no colo.
Quando não precisam mais da mesma presença.
Quando fazem escolhas próprias.
Quando vão embora.
Quando se afastam.
Quando retornam diferentes.
Quando a mãe percebe que já não controla o destino daqueles que gerou, criou ou amou.

Há um momento em que toda mulher que materna precisa atravessar uma espécie de outono.

As folhas caem.
As formas antigas deixam de servir.
O papel que antes dava identidade começa a se transformar.

E então a alma pergunta:

“Quem sou eu quando já não sou necessária do mesmo jeito?”

 

A maternidade e o risco de desaparecer

Há uma beleza imensa em cuidar.

Mas também há um risco silencioso.

O risco de fazer do cuidado uma forma de desaparecimento.

Muitas mulheres aprenderam que amar é estar sempre disponível.
Que ser boa mãe é não falhar.
Que ser forte é aguentar tudo.
Que ser cuidadora é não precisar de cuidado.
Que ser mulher é dar conta.

E assim, pouco a pouco, vão se afastando de si mesmas.

Adiam desejos.
Silenciam cansaços.
Engolem frustrações.
Vestem a culpa como se fosse obrigação.
Confundem amor com renúncia total.

Até que um dia percebem que todos cresceram ao redor, mas algo dentro delas ficou esquecido.

A casa está cheia.
A agenda está cheia.
A vida está cheia.

Mas a alma está com sede.

Há mulheres que se tornam terra fértil para todos, menos para si mesmas.

E talvez Deméter venha nos lembrar exatamente disso.

A maternidade pode ser sagrada.
O cuidado pode ser sagrado.
O amor pode ser sagrado.

Mas nenhum amor verdadeiro deveria exigir que uma mulher desapareça de si.

 

Perséfone também precisa partir

O mito nos ensina algo difícil.

Perséfone precisa descer ao submundo.

Ela precisa viver sua própria iniciação.
Precisa encontrar seus próprios mistérios.
Precisa tornar-se mais do que filha.

Essa é uma das dores mais profundas da maternidade: aceitar que o filho não pertence à mãe.

O filho passa pelo corpo, pela casa, pela história, pelo colo.
Mas não pertence.

Ele pertence à vida.

E a vida, em sua sabedoria nem sempre suave, chama cada pessoa para seu próprio caminho.

Amar, então, deixa de ser segurar.

Passa a ser abençoar a travessia.

Mas isso não acontece sem dor.

Porque soltar um filho é também soltar uma identidade.

A mãe que foi necessária de um jeito específico, em períodos específicos, precisa morrer um pouco, para que uma nova mulher possa nascer.

E aqui entramos no campo da individuação.

Na psicologia profunda, especialmente na tradição junguiana, individuar-se não é tornar-se individualista.

É tornar-se inteira.

É recolher partes esquecidas.
É integrar luz e sombra.
É reconhecer papéis, mas não se reduzir a eles.
É descobrir a própria voz por trás das funções exercidas.

A mulher pode ser mãe.
Pode ser filha.
Pode ser esposa.
Pode ser profissional.
Pode ser cuidadora.

Mas ela não é apenas isso.

Existe nela uma alma maior do que todos os papéis.

A individuação começa quando a mulher deixa de perguntar apenas “quem precisam que eu seja?” e começa a perguntar “quem a minha alma me chama a ser?”

 

A mãe interna

Talvez o maior convite de Deméter, neste Dia das Mães, seja este:

aprender a voltar o cuidado para dentro.

Porque existe uma mãe interna em cada mulher.

Uma força psíquica capaz de acolher, nutrir, proteger, orientar e sustentar a própria vida.

Quando essa mãe interna está ferida, a mulher busca fora o colo que não consegue oferecer a si mesma.

Ela espera permissão.
Espera reconhecimento.
Espera que alguém diga que ela pode descansar.
Que pode desejar.
Que pode mudar.
Que pode florescer.

Mas quando a mãe interna começa a despertar, algo se reorganiza.

A mulher passa a se escutar com mais ternura.
Passa a respeitar seus limites.
Passa a perceber sua fome emocional.
Passa a reconhecer onde está seca.
Passa a cuidar da própria terra.

E cuidar da própria terra não é egoísmo.

É responsabilidade espiritual.

Porque uma mulher desconectada de si pode continuar funcionando, mas deixa de florescer.

Ela cumpre tarefas.
Resolve problemas.
Sustenta pessoas.
Produz.
Atende.
Organiza.
Acolhe.

Mas por dentro, talvez esteja vivendo um longo inverno.

A alma não quer apenas que a gente sobreviva.
A alma quer florescer.

 

Deméter como espelho para mulheres reais

Deméter fala com mães, mas não apenas com mães.

Ela fala com todas as mulheres que, em algum momento, colocaram a própria vida em segundo plano para sustentar a vida de alguém.

Fala com a filha que cuida da mãe.
Com a mãe solo que não tem pausa.
Com a avó que recomeça a maternagem.
Com a terapeuta que acolhe dores todos os dias.
Com a professora que materna salas inteiras.
Com a mulher que não teve filhos, mas gerou projetos, vínculos e caminhos.
Com aquela que perdeu a mãe.
Com aquela que nunca se sentiu suficientemente acolhida.
Com aquela que ainda espera um colo que não veio.

Deméter fala com todas as mulheres que conhecem a beleza e o peso de cuidar.

E ela nos pergunta:

“Quanto de você tem sido abandonado para sustentar os outros?”

Essa pergunta não vem para acusar.

Vem para despertar.

Porque o caminho da alma não começa com culpa.
Começa com consciência.

Não se trata de amar menos os filhos.
Não se trata de negar a maternidade.
Não se trata de diminuir o cuidado.

Trata-se de se incluir no próprio amor.

 

O retorno à própria terra

No mito, a terra volta a florescer quando um novo acordo é possível.

Perséfone não retorna como antes.
Deméter também não volta a ser exatamente a mesma.

Algo mudou.

A filha conheceu outra vida.
A mãe conheceu a perda.
A terra conheceu o inverno.

Mas, justamente por isso, a primavera ganha outro sentido.

Não é mais uma primavera ingênua.

É uma primavera iniciada.

Aquela que sabe que florescer não é nunca perder.
Florescer é retornar à vida depois de ter atravessado a ausência.

E talvez essa seja a grande mensagem deste Dia das Mães:

Ser mãe também é atravessar estações.

Há o tempo do colo.
O tempo da vigília.
O tempo da entrega.
O tempo da exaustão.
O tempo da saudade.
O tempo da separação.
O tempo do reencontro.
E, um dia, o tempo de voltar para si.

Não como quem abandona os outros.

Mas como quem finalmente se inclui na roda da vida.

 

Uma pequena prática para hoje

Em algum momento deste dia, coloque uma das mãos sobre o coração e outra sobre o ventre.

Respire devagar.

Não tente resolver nada.

Apenas pergunte a si mesma:

Onde minha terra interior está seca?

Depois, escreva três frases:

1. Hoje eu reconheço que cuidei muito de…
2. Hoje eu percebo que preciso cuidar mais de…
3. Hoje eu me autorizo a florescer em…

Não escreva para ficar bonito.

Escreva para ser verdadeiro.

A alma não precisa de performance.

Ela precisa de escuta.

 

 

 

Referências simbólicas e inspirações

Mitologia grega: mito de Deméter e Perséfone, ciclo das estações, maternidade, perda, separação e retorno.

Carl Gustav Jung: processo de individuação, integração dos opostos, símbolos como linguagem da alma.

Método Jornada da Alma: travessia simbólica feminina, escuta da alma, transformação de feridas em força e florescimento possível.

 

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