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Aquele que olha para fora sonha. Mas o que olha para dentro acorda. Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração.

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Alquimia da Lua: Quando a Energia Feminina Transforma a Matéria

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Alquimia da Lua: Quando a Energia Feminina Transforma a Matéria

        *Reflexões nascidas do encontro de agosto do Passos da Alma, conduzido pela psicóloga e analista junguiana Márcia Christovam.

 

Há momentos em que não precisamos de mais força para seguir.

Precisamos parar.

Precisamos escutar.

Precisamos criar um intervalo entre aquilo que o mundo espera de nós e aquilo que, silenciosamente, está acontecendo dentro de nós.

Talvez seja justamente por isso que existam espaços como o Passos da Alma: para que, pelo menos uma vez por mês, possamos interromper o movimento automático da vida e encontrar, através de um espaço externo preparado para o encontro, um espaço interno no qual seja possível voltar a nós mesmas.

Não para nos tornarmos outra pessoa. Mas para perguntarmos, com um pouco mais de coragem:

  • Quem sou eu quando não estou apenas tentando dar conta de tudo?
  • O que existe em mim para além das formas que aprendi a habitar?
  • E quanta energia tenho utilizado para continuar sustentando uma mulher que talvez já não comporte tudo aquilo que estou me tornando?

 

Foi a partir dessas perguntas que nasceu este tema do encontro de Agosto: "Alquimia da Lua — Quando a Energia Feminina Transforma a Matéria.”

E talvez possamos começar exatamente pela Lua.

 

1. A Prata, a Lua e a possibilidade de refletir

 

Na antiga linguagem simbólica da alquimia, a Prata pertence à Lua.

E há algo extraordinariamente belo nesse metal: sua capacidade de refletir a luz.

A Prata não precisa produzir a luz que reflete. Ela precisa apenas estar em condições de recebê-la.

Essa imagem nos oferece uma chave importante para pensar o autoconhecimento.

Porque talvez existam períodos da vida em que não precisamos buscar mais respostas, acumular mais conhecimentos, construir mais versões de nós mesmas ou correr atrás de uma luz que imaginamos estar em algum lugar distante.

Talvez o trabalho seja outro…

Talvez precisemos limpar o espelho. Retirar aquilo que distorce. Reconhecer aquilo que encobre. Permitir que alguma luz que já existe encontre uma superfície capaz de refletir.

E aqui a alquimia deixa de ser apenas uma antiga tradição e se transforma numa estratégia de olhar para dentro de nós mesmas realizando perguntas profundamente humanas.

Porque a matéria que nos interessa somos nós. É o nosso corpo. É a nossa história. São as experiências que atravessamos. São os medos que se cristalizaram. Os hábitos que se tornaram automáticos. Os silêncios que aprendemos a manter. As palavras que engolimos. Os desejos que julgamos inadequados. As relações nas quais aprendemos a diminuir nosso tamanho. As maneiras pelas quais aprendemos a amar, reagir, nos defender, agradar, cuidar, permanecer, fugir.

Tudo isso ganha forma. Tudo isso se inscreve na matéria da nossa existência.

Por isso, quando dizemos que a energia transforma a matéria, não estamos falando apenas de uma abstração.

Estamos falando de como uma mudança interna pode modificar a maneira como um corpo ocupa uma sala.

Como uma mulher diz não. Como escolhe. Como ama. Como coloca limites. Como trabalha. Como se relaciona. Como se posiciona diante da própria vida.

Há uma força em nós que não precisa ser criada.

Precisa encontrar passagem.

 

2. A energia que usamos para continuar cabendo

 

Talvez exista uma pergunta ainda mais desconfortável:

Quanto da nossa energia vital está realmente disponível para viver?

E quanto dela está sendo utilizada para nos conter?

Porque conter-se também exige força. Manter uma personagem exige força. Reprimir uma raiva exige força. Engolir palavras exige força. Controlar permanentemente aquilo que sentimos exige força. Sustentar relações que internamente já terminaram exige força. Permanecer pequena para que outra pessoa não se sinta ameaçada exige força. Continuar demonstrando que estamos bem quando alguma coisa dentro de nós pede mudança exige força. Tentar caber continuamente numa forma que já se tornou estreita exige uma quantidade imensa de energia.

Talvez, então, algumas vezes aquilo que chamamos de cansaço tenha uma história mais complexa.

Não significa necessariamente que não exista energia.

Talvez parte dela esteja comprometida em manter alguma coisa adormecida.

Há uma imagem que atravessou todo o encontro de agosto:

- a energia que uma mulher mantém presa para continuar cabendo na forma que aprendeu a habitar.

E diante dela surge inevitavelmente outra pergunta:

O que acontece quando essa energia deixa de ser usada para contenção e volta a ficar disponível para a vida?

  • O que ela poderia criar?
  • Para onde ela iria?
  • Que escolhas poderiam surgir?
  • Que limite finalmente poderia ser colocado?
  • Que projeto poderia nascer?
  • Que palavra poderia ser dita?
  • Que desejo poderia ser reconhecido?
  • Que relação poderia ser transformada?
  • Que vida poderia começar a ganhar espaço?

Talvez a transformação que buscamos não comece acrescentando alguma coisa.

Talvez comece libertando energia.

“Não precisamos criar mais energia. Talvez precisemos libertar a energia que gastamos para permanecer quem já não somos.”

 

3. Talvez não seja preciso construir uma nova mulher

 

Vivemos cercadas por discursos de transformação.

Transforme-se. Reinvente-se. Torne-se sua melhor versão. Mude. Supere.

Evidentemente existem coisas em nós que precisam ser transformadas.

Existem padrões que precisam ser revistos. Existem feridas que pedem cuidado. Existem escolhas que precisam mudar.

Mas o autoconhecimento também exige que façamos outra pergunta:

O que precisa ser transformado em mim… e o que apenas precisa ser visto de outra maneira?

Porque existe uma diferença enorme entre transformação e rejeição.

Às vezes tentamos modificar alguma coisa em nós porque realmente já não nos serve.

Mas outras vezes tentamos modificar aquilo que aprendemos a considerar inadequado apenas porque alguém, um dia, nos ensinou que aquela parte não deveria existir.

Talvez não seja necessário construir uma nova mulher. Talvez seja necessário retirar, pouco a pouco, as camadas que impedem você de reconhecer aquela que já existe.

E é aqui que a imagem da Prata como espelho se torna ainda mais importante.

Um espelho verdadeiro não mostra apenas aquilo que gostamos de ver.

Ele também pode revelar: a raiva que escondemos; o ciúme que preferimos negar; o desejo que julgamos inconveniente; a força que aprendemos a chamar de exagero; a vulnerabilidade que confundimos com fraqueza; as necessidades que aprendemos a censurar; a tristeza que tentamos administrar depressa demais; a sensualidade que julgamos; a ambição que escondemos; a vontade de ocupar espaço; a necessidade de sermos cuidadas depois de tantos anos cuidando.

Autoconhecimento não é selecionar apenas as partes bonitas do reflexo.

Autoconhecimento é desenvolver a capacidade de permanecer diante de si inteira.

Sem imediatamente se diminuir. Sem precisar se idealizar. Sem se condenar. Sem se comparar. Sem se abandonar.

Até que algo dentro de nós possa dizer:

Eu começo a enxergar quem sou, e não apenas quem aprendi que deveria ser.

Nem toda transformação exige que você se torne outra.

Algumas começam quando você consegue finalmente se enxergar sem tanta distorção.

 

4. Quando o mito deixa de ser uma história distante

 

Foi por isso que, durante o encontro, recorremos ao mito.

Não porque precisemos acreditar literalmente em cada uma de suas imagens.

Não porque um mito antigo deva ser transformado numa explicação científica da experiência humana.

E muito menos porque tradições distintas possam ser misturadas como se dissessem exatamente a mesma coisa.

O mito possui outra função.

Na perspectiva simbólica, podemos permitir que uma narrativa nos atravesse antes mesmo que consigamos explicá-la completamente.

O mito fala por imagens: Serpentes. Montanhas. Deuses. Descidas. Subidas. Casamentos. Mortes. Renascimentos. Florestas. Mares. Luas.

E justamente por não falar apenas através dos conceitos consegue alcançar regiões da experiência que a linguagem racional nem sempre alcança imediatamente.

O mito não precisa nos dizer:

“Isto significa exatamente aquilo.”

Ele pode fazer algo muito mais interessante. Pode perguntar:

  • O que esta imagem desperta em mim?
  • Onde existe uma montanha semelhante dentro da minha própria história?
  • O que em mim permaneceu adormecido?
  • O que está tentando subir?
  • O que precisa encontrar consciência?

É nesse sentido que podemos permitir que o mito nos conduza a nós mesmas.

Não se trata de abandonar a razão. Trata-se de permitir que a imaginação simbólica participe do processo de compreensão.

Há experiências que primeiro conseguimos imaginar. Depois conseguimos sentir. E somente mais tarde conseguimos nomear.

 

No encontro do Passos da Alma, portanto, a história de Shiva, Shakti, Parvati e Kundalini foi apresentada como uma leitura simbólica, uma metáfora através da qual pudéssemos refletir sobre energia, consciência, corpo, transformação e integração. Os próprios textos preparados para a vivência deixam explícito esse convite: escutar a narrativa não apenas como história de deuses de uma tradição distante, mas como imagem para algo que talvez aconteça também dentro de nós.

Talvez essa seja uma das grandes potências do mito: ele não entrega apenas uma resposta. Ele nos oferece uma paisagem interior na qual podemos caminhar.

 

5. Shakti: a força que dá movimento à vida

 

Na leitura simbólica apresentada durante o encontro, encontramos duas grandes forças.

- Shiva, como imagem da consciência, da presença, do silêncio, daquilo que observa.

- Shakti, como potência, energia, criação, desejo, movimento, força transformadora.

Shakti é a Energia que faz nascer. É a Força que rompe uma forma para que outra possa surgir. É a semente rompendo a terra. É o corpo que se movimenta. É a criatividade procurando expressão. É o desejo. É a dança. É a força vital.

E talvez possamos fazer uma pergunta aparentemente simples:

Onde está a minha Shakti?

Onde está a minha energia de vida?

Porque talvez a pergunta não seja:

“Será que tenho força?”

Talvez seja:

  • Onde está a força que eu já tenho?
  • Onde ela está circulando?
  • E onde ela ficou presa?

 

6. A potência adormecida

 

Na imagem tradicional de Kundalini utilizada em nossa reflexão, Shakti aparece simbolicamente como uma serpente recolhida na base da coluna, enrolada e adormecida.

Mas há uma palavra que merece toda a nossa atenção:

adormecida.

Não morta.

Aquilo que morreu terminou. Aquilo que está adormecido ainda contém possibilidade.

Essa distinção é preciosa.

Porque talvez existam muitas coisas dentro de nós que julgamos perdidas quando, na verdade, apenas aprenderam a dormir.

A mulher que desejava criar. A mulher que sabia dizer não. A mulher que queria dançar. A mulher que ocupava espaço. A mulher que confiava na própria intuição. A mulher que tinha desejo. A mulher que sonhava uma vida diferente. A mulher que queria viajar. Estudar. Começar outra vez. Fazer algo somente porque aquilo lhe dava alegria.

Talvez essas mulheres não tenham desaparecido. Talvez estejam adormecidas sob as camadas da adaptação.

Nos textos preparados para o encontro, essa imagem aparece reiteradamente: a Kundalini é uma potência latente, e aquilo que está adormecido não terminou; ainda pode despertar.

E então as perguntas começam a se tornar mais íntimas:

  • Que parte da minha força eu precisei adormecer para conseguir me adaptar?
  • Que parte de mim aprendeu que era mais seguro não aparecer?
  • Que desejo diminui para continuar pertencendo?
  • Que potência escondi?
  • Quanto da minha energia ainda gasto para manter essa parte adormecida?

 

7. O corpo sabe antes da palavra

 

Talvez um dos pontos mais importantes dessa reflexão esteja aqui.

O corpo muitas vezes sabe antes da palavra.

Alguma coisa começa a mudar dentro de nós e ainda não sabemos explicar.

Não existe uma narrativa pronta. Não existe uma decisão. Não existe uma resposta clara. Existe apenas um movimento. E ele pode aparecer como: inquietação; cansaço; irritação; desconforto; necessidade de recolhimento; vontade de espaço; desejo de mudança; uma sensação difícil de explicar de que alguma coisa já não serve; uma vontade de chorar sem saber exatamente por quê; um incômodo crescente com situações que antes tolerávamos; uma súbita necessidade de criar; uma vontade de estar sozinha; uma necessidade de dançar; uma pergunta recorrente.

Antes de sabermos o nome da transformação, talvez o corpo já esteja sendo atravessado por ela.

Por isso uma pergunta nos acompanhou:

E se aquilo que você chama de inquietação for uma parte sua tentando despertar?

Isso não significa romantizar todo sofrimento.

Nem dizer que toda crise possui automaticamente um sentido elevado.

Significa apenas permitir outra escuta.

Em vez de perguntar imediatamente:

“Como faço isso parar?”

talvez algumas vezes possamos perguntar:

“O que isso está tentando me contar?”

Há forças que não chegam primeiro através da palavra.

Primeiro estremecem o corpo.

Depois movimentam o desejo.

Até que um dia já não aceitam permanecer adormecidas.

 

8. Parvati e a subida da montanha

 

Outra imagem atravessou nossa experiência: Parvati subindo a montanha em direção a Shiva.

Aqui é importante reafirmar: estamos assumindo deliberadamente uma leitura simbólica do mito.

Parvati é uma manifestação de Shakti, da potência vital encarnada na terra. Ela re reconhece com saudade de Shiva, o princípio masculino que se encontra no alto da montanha e deseja reencontra-lo.

A montanha, representa nosso próprio percurso interior em busca de iluminação.

E o encontro, representa a possibilidade de integração das nossas partes até então dispersas e esquecidas.

O despertar de Shakti, enrolada na base da montanha como Kundalini ocorre através da saga de Parvati que olha para o alto da montanha e inicia seu processo de disciplina, presença, concentração e transformação. Sua trajetória representa muito bem o movimento alquímico da transformação no metal não nobre em nobre, e atende muitíssimo bem ao derramar da prata alquímica na consciência humana. 

E como chega o DESPERTAR? 

Às vezes ele vem como desejo. Às vezes como indignação. Às vezes como necessidade. Às vezes como paixão. Às vezes como uma crise. Às vezes como uma perda. Às vezes como exaustão…

Alguma coisa aquece a matéria da nossa existência e começa a dizer:

“Eu não consigo continuar exatamente como estava.”

É desconfortável. Mas o desconforto nem sempre é o inimigo da transformação. Há momentos em que ele é o sinal de que uma forma deixou de comportar aquilo que deseja nascer.

A pergunta então deixa de ser apenas:

“Como volto a ser quem eu era?”

E passa a ser:

“O que já não comporta a mulher que estou me tornando?”

 

9. A subida não é explosão: é encontro com a consciência

 

Existe, porém, um cuidado essencial.

Libertar a própria força não significa entregar a vida a qualquer impulso.

Despertar não significa agir imediatamente sobre tudo o que sentimos.

Integração não significa ausência de limites. Pelo contrário.

A imagem da subida de Kundalini utilizada em nossa reflexão aponta justamente para outra possibilidade: aquilo que estava inconsciente encontra progressivamente a consciência.

A raiva pode encontrar um limite. O desejo pode encontrar direção. A criatividade pode encontrar expressão. A sensualidade pode encontrar corpo. A força pode encontrar escolha. A voz pode encontrar palavra. O instinto pode encontrar discernimento. 

Porque não basta despertar a potência. É preciso aprender a habitá-la.

Talvez muitas mulheres tenham aprendido duas possibilidades extremas. Ou conter completamente sua força. Ou temer que, caso ela apareça, se torne destrutiva.

Mas existe uma terceira possibilidade:

ter uma relação consciente com a própria força.

Eu posso reconhecer minha raiva sem precisar destruir.

Posso reconhecer meu desejo sem precisar ser governada por ele.

Posso reconhecer minha sensualidade sem transformá-la em obrigação.

Posso reconhecer minha vulnerabilidade sem me considerar fraca.

Posso reconhecer minha potência sem precisar dominar.

Posso reconhecer meu limite e dizer não.

Posso querer. Posso escolher. Posso mudar. Posso permanecer.

A consciência não precisa aprisionar a energia. Ela pode oferecer direção.

 

10. Quando Shakti encontra Shiva

 

No alto da montanha acontece o encontro.

Shakti encontra Shiva.

Energia encontra consciência. Movimento encontra presença. Instinto encontra discernimento. Desejo encontra direção. Corpo encontra significado.

É uma imagem profundamente transformadora porque não propõe que uma força destrua a outra.

A questão não é tornar-se apenas Shiva. Também não é ser tomada apenas por Shakti.

É o encontro. A integração.

Essa aproximação também pode ser lida em imagens da alquimia ocidental: o encontro entre Sol e Lua, Rei e Rainha, dois princípios que precisam deixar de guerrear para que algo novo possa surgir. Sem confundir as tradições nem afirmar que sejam equivalentes, podemos reconhecer uma pergunta humana que atravessa ambas: como reunir dentro de nós aquilo que foi separado?

Talvez seja essa uma das perguntas mais importantes de uma vida.

  • Como reunir força e sensibilidade?
  • Corpo e consciência?
  • Razão e desejo?
  • Movimento e silêncio?
  • Independência e necessidade de vínculo?
  • Coragem e medo?
  • Autonomia e pertencimento?

Não precisamos necessariamente eliminar um dos lados.

Às vezes a maturidade não acontece quando finalmente escolhemos qual das duas partes somos.

Acontece quando conseguimos sustentar a tensão entre ambas sem precisar amputar nenhuma delas.

 

11. Um corpo inteiro

 

Existe uma imagem particularmente bela nessa tradição: Ardhanarishvara, a representação de Shiva e Parvati num único corpo.

Metade Shiva. Metade Parvati.

Nenhum dos dois desaparece. Nenhum precisa destruir o outro. Ambos permanecem reconhecíveis e, ainda assim, pertencem à mesma totalidade.

Talvez seja possível contemplar essa imagem como metáfora de integração.

Não precisamos escolher entre ser forte ou sensível.

Desejante ou consciente.

Corpo ou espírito.

Movimento ou silêncio.

Talvez possamos aprender a sustentar: força e sensibilidade; desejo e discernimento;

instinto e consciência; corpo e significado. Integração não é ausência de contradição.

É a possibilidade de não precisar expulsar uma parte de si para que outra possa existir.

 

12. O verdadeiro espelho

 

E então voltamos à Lua. Voltamos à Prata. Voltamos ao espelho.

Talvez consciência seja também isso: a capacidade de oferecer àquilo que sentimos um espaço no qual possa ser visto.

Não para julgar. Não para imediatamente corrigir. Mas para reconhecer.

Quando conseguimos fazer isso, alguma coisa muda.

Aquilo que era apenas impulso pode tornar-se escolha.

Aquilo que era apenas desejo pode encontrar direção.

Aquilo que permanecia sombra pode começar a ser reconhecido.

Aquilo que era potência pode transformar a matéria.

Por isso a pergunta:

Isso que vejo em mim nasceu em mim ou foi colocado sobre mim?

 

É realmente minha essa vergonha? É realmente meu esse medo? Quem me ensinou que ocupar espaço era demais? Quem me ensinou que precisar era fraqueza? Quem me ensinou que dizer não era egoísmo? Quem me ensinou que minha raiva era feia? Quem me ensinou que ser desejante era perigoso? Quem me ensinou que eu precisava conseguir tudo sozinha?

E, entre tantas vozes, qual delas é realmente minha?

Um espelho verdadeiro talvez nos permita descobrir uma coisa desconcertante: há características que passamos anos tentando eliminar quando talvez precisassem apenas ser compreendidas.

Há forças que condenamos quando talvez precisassem apenas encontrar uma expressão mais consciente.

Há emoções que consideramos inadequadas quando talvez estivessem apenas tentando nos proteger.

Há inquietações que desejamos silenciar quando talvez estivessem anunciando crescimento.

Por isso:

O que precisa ser transformado em mim, e o que apenas precisa ser visto de outra maneira?

 

13. Quando a energia volta a circular

 

Há uma imagem que considero fundamental em todo esse percurso.

Aquilo que estava enrolado começa a se desenrolar.

Aquilo que estava preso começa a circular.

Aquilo que permanecia inconsciente começa a encontrar consciência.

Talvez essa seja uma boa definição para a alquimia que nos interessa.

Não se trata simplesmente de liberar energia. Trata-se de devolver movimento àquilo que ficou cristalizado. Expressão àquilo que foi silenciado. Consciência àquilo que operava na sombra. Escolha àquilo que antes era apenas repetição.

E quando isso acontece, a transformação deixa de ser uma ideia abstrata. 

A matéria começa a mudar. A postura muda. A voz muda. O limite muda. A escolha muda. As relações mudam. A maneira de ocupar a própria vida muda.

Talvez externamente nenhuma revolução aconteça de imediato.

Mas internamente alguma coisa já deixou de aceitar o antigo lugar.

E toda transformação profunda talvez comece assim.

Primeiro um pequeno deslocamento.

Depois uma pergunta.

Depois uma percepção.

Depois uma escolha diferente.

Até que, um dia, percebemos:

já não cabemos onde antes passávamos a vida tentando caber.

 

14. Algumas perguntas precisam de espaço

 

Talvez você não precise responder às perguntas que seguem imediatamente.

Até porque algumas perguntas não foram feitas para serem resolvidas depressa.

Foram feitas para permanecer conosco. Para caminhar ao nosso lado. Para aparecer quando estamos no banho. Quando dirigimos. Quando acordamos no meio da noite. Quando dançamos. Quando uma situação antiga se repete. Quando o corpo se inquieta. Quando uma escolha precisa ser feita.

Permita que alguma delas encontre você:

  • Que força existe em mim, mas ainda não encontrou caminho para se expressar?
  • Quanto da minha energia vital tenho usado para me conter?
  • Que parte da minha força precisei adormecer para me tornar a mulher que aprendi que deveria ser?
  • O que em mim pede acolhimento?
  • O que em mim está tentando ser ouvido?
  • Que parte de mim aprendeu que era mais seguro não aparecer?
  • Isso que vejo em mim nasceu em mim ou foi colocado sobre mim?
  • O que precisa ser transformado em mim e o que apenas precisa ser visto de outra maneira?
  • O que já não comporta a mulher que estou me tornando?
  • Que parte da minha vida continua sendo sustentada apenas porque ainda não tive coragem de admitir que mudou dentro de mim?
  • O que essa força poderia transformar em minha vida se encontrasse passagem?

 

Não responda depressa. Deixe que alguma pergunta desça até onde a resposta ainda não virou palavra.

 

15. A transformação talvez não seja tornar-se outra

 

Talvez tenhamos passado tempo demais acreditando que transformação significava produzir uma mulher completamente nova.

Uma mulher mais forte. Mais bonita. Mais segura. Mais espiritualizada. Mais produtiva. Mais resolvida.Mais alguma coisa…

 

Mas talvez exista outra forma de compreender a transformação.

Talvez ela aconteça quando paramos de utilizar tanta energia para impedir que a vida se mova dentro de nós.

Quando a mulher que sabia dizer não encontra novamente sua voz.

Quando a mulher criativa volta a criar.

Quando aquela que vivia para sustentar todos começa a reconhecer suas próprias necessidades.

Quando a sensualidade deixa de ser vergonha.

Quando a força deixa de ser ameaça.

Quando a vulnerabilidade deixa de significar fracasso.

Quando o corpo deixa de ser apenas algo que carregamos e volta a ser um lugar que habitamos.

Quando aquilo que sentimos consegue finalmente ser visto.

Talvez transformação não seja criar outra identidade. Talvez seja tornar-se suficientemente consciente para não precisar mais abandonar pedaços de si.

E então a imagem da Lua volta pela última vez.

A Prata não fabrica a luz. Ela reflete.

Talvez exista algo em nós que também não precise ser fabricado. Talvez precise ser reconhecido. Visto. Acolhido. Integrado. E colocado em movimento.

Porque, talvez, a grande alquimia não seja transformar uma mulher em outra.

Talvez seja devolver movimento àquilo que ficou cristalizado, consciência àquilo que permaneceu inconsciente e expressão àquilo que foi silenciado, permitindo que a energia antes utilizada para conter a vida volte a ser utilizada para criar vida.

Por isso, termino com a pergunta que encerrou nossa jornada simbólica:

Se a sua energia não precisasse mais ser utilizada para conter quem você é, o que ela estaria livre para criar?

Talvez você não precise responder agora. Talvez precise apenas permitir que a pergunta caminhe com você. Porque existe uma força em nós que não precisa ser criada.

Ela precisa encontrar passagem.

 

 

Márcia Christovam
Psicóloga (CRP 09/1891) | Analista Junguiana | Mestra em Ciências das Religiões com Área de Concentração em Cultura e Sistemas Simbólicos
Criadora e facilitadora do Projeto Passos da Alma

 

Este artigo nasce das reflexões e vivências desenvolvidas no encontro de agosto do Passos da Alma — Alquimia da Lua: Quando a Energia Feminina Transforma a Matéria.

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