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Análise do Filme "Poder Além da Vida"
Por Márcia Christovam
Há filmes que a gente termina de assistir e vai embora.
Há filmes que não deixam a gente ir embora tão facilmente.
E ainda há aqueles cujas mensagens desejamos que nunca saiam de nós. Pra mim "Poder Além da Vida” pertence a esse terceiro grupo!
Talvez porque, enquanto acompanhamos Dan tentando se tornar um grande atleta, aos poucos percebemos que a história nunca foi exatamente sobre ginástica. Nunca foi apenas sobre uma perna quebrada, uma competição ou uma medalha de ouro. A história é sobre aquilo que acontece quando a vida nos obriga a perguntar 'quem somos para além de tudo aquilo que aprendemos a usar para definir o nosso valor'.
Esse tipo de pergunta pode ser bastante desconfortável.
Quem é você quando não está produzindo?
Quem é você quando não está vencendo?
Quem é você quando aquilo que fazia tão bem já não pode ser feito?
Quem é você quando a vida não segue o roteiro que você escreveu para ela?
Talvez seja por isso que, durante nosso Cine Debate Logos, uma das primeiras reflexões que apareceu tenha sido justamente esta: a riqueza que existe dentro de nós e que quase nunca exploramos.
A gente vive muito na superfície!
Resolve problema… paga conta… cuida de alguém… responde mensagem… trabalha… corre… cumpre agenda… administra o que aconteceu ontem e tenta impedir o desastre que talvez aconteça amanhã. E, no meio disso tudo, vai vivendo. Ou pelo menos acredita que está vivendo.
Mas será que está???
A vida só acontece no lugar onde quase nunca estamos
Há uma pergunta que atravessa o filme inteiro: onde você está?
E a resposta parece óbvia.
Aqui.
Mas não é.
Nosso corpo pode estar aqui enquanto nossa mente está vinte anos atrás.
Nosso corpo pode estar sentado em uma sala tranquila enquanto internamente estamos discutindo uma conversa que talvez aconteça amanhã.
Podemos estar tomando café pensando no trabalho, trabalhando pensando nas férias, viajando preocupados com o que ficou em casa e, quando voltamos, pensando na próxima viagem.
Nós estamos sempre a caminho de algum lugar. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente tenha a sensação de que a vida está passando rápido demais. Porque a vida está passando enquanto estamos em outro lugar.
Eckhart Tolle tornou essa ideia popular em O Poder do Agora, mas ela é muito mais antiga do que ele. As tradições budistas há séculos trabalham a observação da mente, o desapego em relação aos pensamentos e a possibilidade de perceber a experiência antes que ela seja inteiramente coberta pelas nossas interpretações. O taoísmo, por outro caminho, fala de wu wei, uma forma de agir sem o excesso de esforço, sem a tentativa permanente de violentar a realidade para obrigá-la a caber naquilo que desejamos.
Curiosamente, séculos depois, a Psicologia e a Neurociência começaram a investigar algo semelhante por outras linguagens. Estudos sobre mindfulness mostram relações entre práticas de atenção ao presente, regulação emocional e mudanças na maneira como redes cerebrais envolvidas no pensamento autorreferente funcionam. Não significa esvaziar a cabeça. Significa aprender que ter um pensamento não nos obriga a morar dentro dele.
E foi isso que perguntei aos participantes no Cine Debate Logos durante nossas reflexões: aqui, exatamente aqui, exatamente agora, existe algum problema?
Não amanhã.
Não semana que vem.
Não aquilo que você teme.
Não aquilo que você gostaria de desfazer.
Agora.
É impressionante perceber que, em uma parcela enorme da nossa existência, o problema não está exatamente acontecendo. Estamos sofrendo pela antecipação do que talvez aconteça ou pela repetição mental daquilo que já aconteceu.
Isso não significa negar dores reais. Há dores que estão acontecendo agora. Há perdas, doenças, conflitos e sofrimentos concretos. Estar presente não é fingir que a vida é bonita o tempo inteiro.
Estar presente é parar de sofrer muitas vezes por uma dor que, quando chegar, se chegar, precisará ser vivida apenas uma vez.
Talvez seja hora de tirar o lixo
Só que permanecer presente é difícil quando a mente está cheia.
No filme, o mestre Sócrates fala sobre retirar o lixo da mente. E eu gosto muito dessa imagem porque ela torna algo aparentemente complexo bastante simples.
Como se tira o lixo de uma casa?
Tirando. E com frequência.
Porque não adianta fazer uma grande faxina no primeiro domingo de janeiro e passar o restante do ano jogando lixo no chão.
Nossa mente também acumula coisas = Notícias que não precisávamos consumir… Tragédias repetidas dezenas de vezes… Discussões inúteis… Comparações… Medos… Conversas que continuamos tendo dentro da cabeça muito depois de terem terminado… Preocupações com a vida dos outros… Culpas antigas… Previsões catastróficas… Horas rolando uma tela e deixando entrar informações que nunca escolheríamos conscientemente colocar "dentro de casa".
Chamei isso naquela noite de detox mental. Uso essa expressão como metáfora, não como termo neurocientífico. Trata-se de uma faxina interna que requer atenção e foco no que ‘jogar fora’.
Precisamos começar a perguntar: o que estou permitindo morar dentro de mim?
Podemos começar por exemplo, entendendo que ter empatia não significa carregar dentro de si a dor das pessoas que sofrem. Eu posso olhar para alguém que está vivendo uma dor profunda e perguntar: existe algo que eu possa fazer? Posso estar junto, oferecer um abraço, ajudar concretamente, escutar, cuidar. Isso é amor.
Mas há uma diferença enorme entre acompanhar alguém na sua dor e dar à dor do outro uma moradia dentro de mim.
O sofrimento do outro não precisa ser reproduzido dentro de mim para que meu amor e cuidado por ele seja verdadeiro.
Talvez maturidade emocional também seja aprender a entrar e sair. Aproximar-se sem me perder no que não é meu. Amar sem se me abandonar. Acolher sem carregar o mundo inteiro nos ombros.
A mente precisa aprender onde pousar
Se existe lixo mental, existe também aquilo que nutre.
Por isso sempre gosto de lembrar sobre como é importante contar histórias boas, lembrar experiências felizes, reconhecer aquilo que funcionou e praticar gratidão.
Isso não é fingir que nada ruim aconteceu.
Alguns pensam que a Psicologia Positiva apregoa sobre o viver em uma espécie de felicidade obrigatória, mas não se trata disso. Martin Seligman insiste justamente que diminuir sofrimento não é a mesma coisa que construir florescimento. Uma vida boa não é uma vida sem dor. É uma vida na qual, apesar da dor, também existem sentido, vínculos, engajamento, realizações e experiências positivas.
Em um conhecido estudo de Seligman e colaboradores, práticas simples como registrar coisas que deram certo ao longo do dia produziram benefícios psicológicos mensuráveis em participantes. Não porque escrever três coisas boas faça os problemas desaparecerem, mas porque a atenção também pode ser treinada.
E isso me encanta, porque nossa mente aprende e por isso é preciso refletir: Se todos os dias eu procuro ameaça, encontrarei ameaça. Se todos os dias eu procuro falta, a falta ficará enorme. Se todos os dias eu pergunto o que deu errado, meu cérebro ficará extraordinariamente eficiente em encontrar o que deu errado.
Então talvez seja interessante começar a perguntar também:
O que deu certo hoje?
Quem foi gentil comigo?
O que meu corpo conseguiu fazer?
Que conversa me fez bem?
Que problema não aconteceu?
Que solução eu encontrei?
Que pequena coisa eu consegui?
Qual foi o meu milagre de hoje?
E aqui chegamos a uma das partes que mais gosto…
Nós estamos procurando milagres grandes demais
A gente tem uma mania de achar que só é Milagre o que é grandioso.
Então entendemos que Milagre é o paralítico andar, o cego enxergar, a doença desaparecer, uma fortuna cair no colo, uma porta gigantesca se abrir.
Eu não duvido que coisas extraordinárias possam acontecer. Mas tenho pensado cada vez mais que talvez nossa definição de milagre esteja equivocada, e por isso nossa capacidade de percebê-lo seja pequena demais.
No nosso encontro para este Cine Debate, algumas participantes contaram as pequenas epopeias que precisaram atravessar simplesmente para estarem ali. Uma precisou dizer não para o filho que queria vir a sua casa, outra precisou vencer dor, outra de última hora conseguiu alguém para ficar com seu pai doente e assim poder sair um pouco e estar conosco, outra quase desistiu por estar mais depressiva e de última hora resolveu ir mesmo assim lutando contra o instinto de ficar 'escondida em casa'.
E eu pensei: olha isso! Nós acabamos de assistir a um jovem superar um acidente terrível e pensamos que aquela é uma história de superação.
Mas por que a nossa não é? Quem estabeleceu o tamanho mínimo que uma vitória precisa ter para merecer esse nome?
Com certeza tem dias em que levantar da cama pode ser considerado uma grande vitória!
Talvez colocar um limite para alguém não te invadir seja essa grande vitória!
Talvez voltar a dirigir!
Talvez procurar ajuda!
Talvez ir ao cinema sozinha!
Talvez sair para caminhar quando você queria permanecer dentro da tristeza!
Talvez ter conseguido não responder aquela mensagem no impulso!
Talvez ter respirado antes de repetir um padrão de vinte anos!
Talvez aceita um convite que te oportunizou algo melhor!
Qual é o seu pequeno milagre de hoje? E talvez, se você olhar direito, ele nem seja tão pequeno assim!
A Psicologia Positiva chama atenção justamente para esse território. Florescimento não é construído apenas por acontecimentos espetaculares. Ele também nasce do engajamento, das relações, do sentido, da capacidade de saborear a experiência e de reconhecer aquilo que existe, e não apenas aquilo que falta.
Nós precisamos reaprender a contar testemunhos e não apenas ‘tristemunhos'.
Quando a medalha deixa de ser o motivo
Dan treinava muito. Talvez até demais. Ele era disciplinado, competente, admirado, tinha resultados. O problema nunca foi falta de capacidade.
O problema é que ele havia colocado a própria existência dentro da medalha.
E isso muda tudo.
Existe uma diferença profunda entre querer alguma coisa e precisar daquela coisa para provar que se tem valor.
Quando preciso vencer para me sentir suficiente, a competição deixa de ser competição e vira julgamento.
Quando preciso ser reconhecido para acreditar em mim, o olhar do outro deixa de ser encontro e vira tribunal.
Quando preciso produzir para sentir que mereço existir, o trabalho deixa de ser trabalho e vira penitência.
É isso que Sócrates começa a desmontar.
Em determinado momento, Dan acredita que todo o treinamento servirá para fazê-lo voltar à competição. Mas a lição é outra. A pergunta não é simplesmente se ele ganhará a medalha.
A pergunta é: você ainda faria isso se não houvesse medalha?
Richard Ryan e Edward Deci estudaram durante décadas a diferença entre motivações sustentadas por interesse, valor e sentido e aquelas excessivamente organizadas por recompensa, aprovação ou controle. A Teoria da Autodeterminação mostra que nossa relação com aquilo que fazemos muda profundamente quando existe autonomia, competência e conexão.
Talvez Sócrates estivesse tentando devolver a ginástica para Dan. Não a ginástica como prova. Mas a ginástica como experiência.
Porque quando alguma coisa que amamos vira instrumento permanente para provar nosso valor, ela começa a pesar.
É possível desejar muito uma conquista e ainda assim não entregar a ela a responsabilidade de dizer quem somos.
Há vários de nós vivendo dentro de nós
Uma das cenas mais fortes do filme acontece quando Dan parece confrontar a si mesmo. E gosto de pensar nessa cena como uma representação de algo que todos conhecemos, mesmo quando não percebemos.
Dentro de nós existem movimentos diferentes: Existe uma parte que quer mudar e outra que sente medo… Uma parte deseja crescer e outra quer permanecer exatamente onde está… Uma quer amar e outra se protege… Uma quer aparecer e outra se esconde… Uma quer viver intensamente e outra prefere não correr riscos…
Jung compreendeu muito bem que a psique não é esse bloco uniforme como gostamos de imaginar. Existem complexos, sombras, contradições, conteúdos que conhecemos e outros que preferiríamos não conhecer.
Talvez amadurecer não seja eliminar essas vozes. Talvez seja conseguir escutá-las sem entregar o volante para qualquer uma delas.
Porque todos nós sabemos como é querer profundamente uma coisa e agir exatamente na direção contrária… Querer um novo trabalho e sabotar a entrevista…Querer um relacionamento saudável e escolher repetidamente o conhecido sofrimento… Querer cuidar do corpo e tratá-lo como inimigo… Querer paz e alimentar diariamente tudo aquilo que nos mantém em guerra…
Autoconhecimento não é descobrir uma versão perfeita de nós mesmos. É conhecer suficientemente nossa casa interna para perceber quem está falando antes de obedecer.
Fé não é esperar que o universo obedeça
Durante nossa conversa contei uma história da minha infância.
Eu gostava muito de Yakult. Quando restavam poucos na geladeira da minha avó, eu pensava que, se acreditasse com bastante força, novos Yakults apareceriam.
E apareciam!!!
Eu não tinha visto minha avó comprar. Não tinha ouvido a vendedora passar. Então, para aquela criança, havia apenas uma explicação possível.
Eu fazia mágica.
Hoje eu sei, obviamente, quem colocava os Yakults na geladeira.
Mas há alguma coisa daquela menina que eu não quero perder.
Não a crença infantil de que pensamento materializa garrafinhas.
Quero preservar a capacidade de imaginar possibilidade antes de enxergar o caminho inteiro.
Isso, para mim, toca o território da fé.
Fé não é acreditar que conseguiremos controlar tudo.
Talvez seja quase o contrário.
É caminhar sem possuir todas as garantias.
É interessante citar a física quântica justamente aqui, porque através dela descobrimos que, no nível mais profundo da matéria, a realidade não é rígida, mas sim um campo aberto de probabilidades. Antes que uma medição aconteça, as partículas subatômicas existem em múltiplos estados simultâneos, como se esperassem o olhar do observador para finalmente escolherem uma forma definitiva de ser e se portar. Essa ciência não valida o pensamento mágico infantil de materializar coisas do nada, mas nos oferece uma metáfora poderosa sobre a existência: o universo, em sua essência, não está totalmente determinado. Quando exercitamos a fé e a imaginação, agimos como esse observador quântico. Nós não controlamos o resultado final, assim como não controlamos a rota da vendedora de Yakult, mas a nossa intenção focada e o nosso primeiro passo colapsam o caos de caminhos invisíveis, permitindo que uma nova realidade comece a se desenhar diante de nós. E isso já basta como provocação.
Talvez não controlemos tanto quanto acreditamos.
Talvez existam possibilidades que ainda não conseguimos enxergar.
Talvez seja possível trocar a obsessão pela garantia por uma relação mais confiante com o caminho.
O taoísmo diria algo parecido por outra linguagem = Às vezes, esforço demais produz exatamente o contrário daquilo que desejávamos, mas Wu wei não é passividade. É uma ação menos endurecida, menos agarrada, capaz de responder ao que a realidade apresenta.
Talvez seja essa uma das grandes mudanças de Dan. Ele não deixa de agir. Ele deixa de se violentar para agir.
O mestre aparece quando algo em nós fica pronto
Há uma antiga frase, atribuída às tradições orientais, que diz que quando o discípulo estiver pronto, o mestre aparecerá.
Não sei se precisamos tomar isso literalmente. Mas gosto muito da imagem, porque talvez os mestres sempre estejam passando.
Uma conversa.
Um livro.
Um encontro.
Uma frase.
Uma pessoa.
Uma experiência.
Um filme numa terça-feira à noite.
E às vezes não percebemos porque simplesmente não estamos prontos para escutar.
Dan encontra Sócrates quando alguma coisa dentro dele já começou a rachar.
E isso também acontece conosco. Há momentos em que a vida abre uma fresta. E aquilo que já tínhamos ouvido cem vezes finalmente entra.
Infelizmente, às vezes é uma crise que abre essa fresta.
Há pancadas que quebram. E há pancadas que também abrem caminhos de cura
Eu desejaria poder dizer que toda dor transforma. Mas não transforma obrigatoriamente
Há pessoas que sofrem e permanecem tal qual eram antes do evento traumático. Há pessoas que saem de uma crise mais fechadas, mais assustadas, mais endurecidas.
Portanto, romantizar a dor seria um tipo de violência.
Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun estudaram aquilo que chamaram de crescimento pós-traumático. Algumas pessoas, depois de enfrentarem experiências profundamente difíceis, relatam mudanças significativas na apreciação da vida, na percepção da própria força, nos relacionamentos, na espiritualidade e na abertura para novas possibilidades.
Mas o ponto mais importante é este: não é o trauma que produz automaticamente crescimento.
Existe luta.
Existe elaboração.
Existe tempo.
Existe reconstrução.
Existe atravessamento.
Às vezes a vida quebra a estrutura pela qual compreendíamos quem éramos e somos obrigados a construir uma nova.
Viktor Frankl compreendeu isso talvez como poucos. Depois de atravessar experiências extremas, desenvolveu uma psicologia profundamente interessada na capacidade humana de encontrar sentido mesmo diante daquilo que não pode ser mudado.
Sentido não transforma tragédia em coisa boa. Sentido transforma nossa relação com aquilo que aconteceu.
E posso falar disso não apenas como psicóloga. Posso falar como alguém que já viveu pancadas nesta vida.
Quando perdi meu marido, meu mundo se desfez e se refez, e um “Novo Eu” pode vir à existência, mas eu com certeza não escolheria esse caminho. Se alguém tivesse colocado diante de mim duas portas e dito “por esta você continua exatamente como está, por aquela você viverá essa dor e se transformará”, obviamente eu teria escolhido permanecer como estava. Mas a escolha não me foi dada. A experiência veio. E eu vivi. Eu amarguei a dor. Eu mergulhei nela quando foi preciso mergulhar. Eu atravessei o luto como consegui atravessar. E algum tempo depois comecei a olhar para a mulher que saiu dali.
É estranho dizer isso. Mas eu gosto dessa nova mulher que emergiu da dor!
Gosto profundamente de quem nasceu daquelas cinzas.
Às vezes tenho a sensação de que aqui dentro de mim uma Márcia morreu e outra começou a existir.
Eu jamais diria que foi bom perder.
Não foi.
Eu diria outra coisa.
Foi possível viver depois da perda. Foi possível me transformar depois da perda. Foi possível voltar a amar a vida sem deixar de amar aquilo que perdi.
Talvez isso seja uma das maiores formas de esperança que podemos oferecer a alguém.
Não a promessa infantil de que nada ruim acontecerá.
Mas a confiança adulta de que, se acontecer, talvez existam dentro de nós recursos que ainda nem conhecemos.
Será sempre preciso sofrer para mudar?
Aqui há um ponto essencial.
Nós não precisamos esperar uma perna quebrar.
Não precisamos esperar um casamento acabar.
Não precisamos esperar adoecer.
Não precisamos esperar perder alguém.
Não precisamos esperar a empresa quebrar, o corpo gritar ou a vida nos jogar no chão para finalmente perguntar se estamos vivendo do jeito que gostaríamos.
É possível dar grandes saltos também na alegria.
É possível transformar-se pelo amor. Pela curiosidade. Por uma conversa. Pela terapia. Pelo encontro. Por uma viagem. Por um livro. Por uma aula. Por uma noite de cinema com pipoca.
A tragédia pode abrir portas. Mas ela não possui exclusividade sobre a transformação.
Eu, sinceramente, espero que minhas maiores pancadas já tenham passado. Espero que o restante da viagem seja suave.
Quero alegria… Quero encontros bons… Quero dias comuns… Quero poder agradecer por uma vida que não precise estar sempre se reconstruindo de alguma explosão.
Mas existe uma diferença entre desejar uma vida leve e exigir que a vida seja leve para que eu consiga vivê-la.
Hoje gosto mais da segunda posição.
Eu espero o melhor. E aquilo que vier, eu vou viver.
O problema não é morrer. É chegar ao fim sem ter vivido
Talvez esta seja uma das provocações mais bonitas de Poder Além da Vida.
Nós ficamos tão preocupados com a chegada que ignoramos a jornada.
Quando eu conseguir… Quando os filhos crescerem… Quando eu emagrecer… Quando tiver dinheiro… Quando me aposentar… Quando encontrar alguém… Quando terminar o tratamento… Quando resolver isso…
Quando… Quando… Quando.
E assim vamos colocando a vida sempre alguns metros à nossa frente.
Sócrates tenta devolver Dan ao caminho.
Não à medalha.
Mas ao movimento. Ao corpo. À experiência. Ao instante.
E talvez seja exatamente isso que precisamos fazer de tempos em tempos.
Então deixo a você a mesma pergunta que deixei naquela noite para quem estava comigo:
O que da sua jornada você precisa aproveitar mais?
Não algum dia.
Mas ainda nesta semana.
O que existe na sua vida hoje que você tem tratado apenas como caminho para chegar a outro lugar?
O que você já pode começar a aproveitar mais e melhor aqui e agora?
Talvez sejam seus filhos na idade que têm agora.
Talvez seja seu corpo como está agora.
Talvez seja uma amizade.
Talvez seja a casa onde você mora.
Talvez seja seu trabalho.
Talvez seja um projeto ainda pequeno.
Talvez seja uma mãe para quem ainda pode telefonar.
Talvez seja um café tomado devagar.
Talvez seja você.
Porque a vida não começa depois que tudo se resolver.
A vida não começa quando finalmente conquistarmos a medalha.
A vida não começa quando estivermos prontos.
A vida já começou.
E talvez o grande aprendizado de Dan não tenha sido descobrir como vencer.
Talvez tenha sido descobrir que a vitória nunca esteve no fim da jornada.
Ela estava na capacidade de finalmente estar dentro dela.
Aqui.
Agora.
Inteiro.
E se hoje você conseguir perceber um pouco mais da vida que já está acontecendo, talvez nenhum grande milagre precise acontecer.
Talvez o milagre seja exatamente esse. E você estava aqui para vê-lo!
Referências e inspirações
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