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A coragem de crescer:
Quando sua vida já ficou maior do que os limites que você aprendeu a aceitar
Reflexões a partir do Estanho Alquímico trabalhado no workshop de setembro do Projeto Ninho
Por Márcia Christovam
Existem momentos em que crescer parece uma questão bastante objetiva.
Quero ganhar mais. Quero ampliar minha clínica. Quero ter mais clientes. Quero ocupar uma posição melhor. Quero colocar um projeto no mundo. Quero finalmente fazer aquilo que venho adiando.
E então estabelecemos metas, fazemos planejamentos, organizamos estratégias e determinamos prazos.
Tudo isso é importante.
Eu costumo dizer que não existe meta profissional sem número. Se você diz que quer crescer profissionalmente, em algum momento precisa ser capaz de responder: crescer quanto? Faturar quanto? Atender quantas pessoas? Entregar o quê? Para quem? Em quanto tempo?
Caso contrário, corremos o risco de chamar de meta aquilo que ainda é apenas um desejo pouco definido.
Mas há uma parte do crescimento que não cabe na planilha.
E talvez seja justamente essa parte que explique por que pessoas competentes, experientes e verdadeiramente desejosas de avançar continuam, muitas vezes, girando ao redor das mesmas dificuldades.
Porque crescer não exige apenas estratégia.
Crescer exige estrutura psíquica para sustentar o tamanho que desejamos ocupar.
Foi a partir dessa reflexão que construímos o encontro de setembro do Projeto Ninho, no qual mergulhamos na temática do Estanho Alquímico e da Coragem de Crescer.
O Projeto Ninho: pertencer sem precisar permanecer pequeno
O Projeto Ninho nasceu também dessa compreensão: nenhuma trajetória profissional deveria ser construída no isolamento.
Precisamos de espaços de pertencimento, de troca, de conexão genuína. Mas precisamos também de um pertencimento que não nos mantenha pequenos.
Um lugar em que possamos ser acolhidos e, ao mesmo tempo, provocados a expandir.
Isso cria um paradoxo muito importante: precisamos pertencer, mas não podemos precisar tanto pertencer a ponto de não nos permitirmos crescer.
No encontro de setembro, esse movimento apareceu em três pilares: pertencimento, expansão profissional e coragem de crescer além dos limites aprendidos. E foi justamente o Estanho alquímico que nos ofereceu a imagem para pensar sobre essa passagem.
Por que o Estanho?
Na linguagem alquímica que orienta o Projeto Ninho ao longo deste ano, chegamos em setembro ao Estanho.
Na tradição simbólica trabalhada no encontro, o Estanho nos fala de maleabilidade e adaptação. Não de ausência de forma. Não de se dobrar a tudo. Mas da capacidade de se transformar sem perder aquilo que se é.
Existe uma rigidez que, muitas vezes, se disfarça de estabilidade:
“Eu sou assim.”
“Sempre fiz desse jeito.”
“Já está bom.”
“Não preciso mudar.”
Mas crescer exige que alguma coisa possa adquirir uma nova forma.
O Estanho nos convida a abandonar o que limita, abrir espaço para novos caminhos e perguntar: até que ponto consigo me modificar para comportar aquilo que digo querer viver?
Na tradição alquímica que relaciona os metais aos astros e às divindades, o estanho é associado a Júpiter — e Júpiter, no panteão romano, corresponde a Zeus. É como se a potência de Zeus se derramasse simbolicamente sobre a Terra na forma desse metal. Por isso, vale aproveitar justamente o mito de Zeus como uma chave de leitura para aprofundar nossa reflexão: antes de ocupar o Olimpo, ele precisou sobreviver, crescer, reunir força, reconhecer seu lugar e enfrentar a ordem que o mantinha oculto. Ao acompanhar esse percurso, podemos também compreender melhor o que, em nós, ainda precisa ganhar forma, coragem e sustentação para que nosso próprio potencial de crescimento deixe de permanecer apenas como possibilidade e possa, de fato, vir ao mundo.
Quando Cronos engole seus próprios filhos
Na mitologia grega, Cronos recebe uma profecia: um de seus filhos o destronaria.
Para impedir que isso acontecesse, cada vez que um filho nascia, Cronos o engolia.
A imagem é brutal. Mas talvez seja justamente por isso que ela seja tão poderosa.
Cronos é associado ao tempo. Está na origem da ideia de tempo cronológico, daquele tempo que passa, que contamos, medimos e que tantas vezes parece nos engolir.
E os filhos?
Um filho é também uma possibilidade.
É alguma coisa que nasceu — ou poderia nascer — a partir de nós.
Quando trouxe esse mito para o encontro, fiz uma pergunta muito simples: quantos projetos que você imaginou realizar em 2026 ainda estão dentro de você?
Talvez você tenha começado o ano dizendo que criaria um grupo. Que começaria um novo serviço. Que estudaria alguma coisa. Que faria uma mudança importante na carreira.
Ou talvez nem fosse profissional. Talvez você tivesse decidido dançar, fazer pilates, andar de bicicleta, viajar, cuidar de alguma dimensão da sua vida que há muito tempo vinha sendo adiada.
O projeto existiu... O desejo existiu... O potencial existiu.
Mas ele não veio ao mundo.
Nesse sentido, somos também Cronos.
Há momentos em que engolimos os nossos próprios filhos.
Guardamos dentro de nós aquilo que poderia ter adquirido existência no mundo.
“O projeto é o filho. Está aí dentro. É um potencial que foi guardado dentro de você e não foi colocado para fora na execução.”
E talvez seja importante perceber isso sem transformar a constatação em mais um chicote.
Porque o chicote raramente ajuda.
A pergunta mais interessante é outra:
Por que estou engolindo aquilo que digo querer colocar no mundo?
Zeus: o potencial que sobrevive ao tempo
Reia, cansada de ver seus filhos serem devorados, decide interromper a repetição.
Quando Zeus nasce, ela engana Cronos, entregando-lhe uma pedra envolvida em panos, enquanto esconde o filho.
Zeus cresce protegido.
Somente depois retorna, enfrenta Cronos, liberta os irmãos e inaugura uma nova ordem.
Essa parte do mito me interessa particularmente. Porque antes de ocupar o Olimpo, Zeus precisou sobreviver escondido.
Nem todo crescimento começa aparecendo. Há coisas que precisam de caverna. Uma ideia recém-nascida, um projeto ainda frágil, uma identidade profissional em transformação, uma decisão que ainda está criando raízes dentro de nós talvez precise, por algum tempo, ser protegida dos olhares, das opiniões e até das expectativas alheias.
Uma semente não começa crescendo para cima. Primeiro cresce para baixo. Cria raiz. Depois aparece.
Em nossa própria história, algumas capacidades também podem ter permanecido escondidas durante muito tempo. Às vezes aquilo que hoje chamamos de retraimento, inadequação ou até medo foi, em algum momento, uma forma de proteção de um potencial que ainda não tinha condições de aparecer.
Mas chega um momento em que a caverna deixa de proteger e começa a aprisionar.
E aí surge outra pergunta:
Aquilo que um dia precisou ficar escondido ainda precisa permanecer escondido hoje?
Nem todo limite é uma crença
Quando começamos a falar de crescimento, existe uma armadilha que considero importante evitar: transformar todo limite em “crença limitante”.
Nem tudo o que nos limita é uma crença.
Existem limites reais.
Se determinada atuação profissional exige uma formação específica e eu ainda não a tenho, há uma condição objetiva.
Existem limites financeiros, técnicos, éticos, legais, temporais, estruturais.
Maturidade não é fingir que eles não existem.
Mas existe o movimento contrário, igualmente perigoso: transformar em realidade aquilo que foi apenas aprendido como limite.
É aí que a coisa começa a ficar interessante.
Porque muitas das fronteiras que organizam nossa vida não foram escolhidas conscientemente por nós.
Foram aprendidas.
“Dinheiro não cresce em árvore.”
“A vida não é fácil.”
“Você está querendo demais.”
“Mulher não faz isso.”
“Homem não pode ser fraco.”
“Ou você é empregado ou é concursado.”
“Você precisa ser mais discreta.”
“Quem você pensa que é?”
Talvez ninguém tenha pronunciado exatamente essas frases para você.
Mas todos nós crescemos dentro de sistemas de crenças sobre dinheiro, trabalho, sucesso, poder, gênero, visibilidade, segurança, humildade, merecimento e pertencimento.
E vamos construindo, silenciosamente, uma espécie de perímetro.
Um tamanho dentro do qual aprendemos que é seguro existir.
O problema é que nós crescemos.
Nossas competências crescem.
Nossa experiência cresce.
Nossa maturidade cresce.
Nossa capacidade cresce.
Mas a imagem interna que temos de nós nem sempre cresce junto.
Talvez você já tenha crescido. Mas sua carreira ainda esteja organizada pelo tamanho de quem você foi.
Talvez você não tenha medo de crescer
Há uma pergunta que considero ainda mais profunda.
Porque, algumas vezes, não é exatamente o crescimento que nos assusta.
É aquilo que imaginamos que poderá acontecer com nossos vínculos se crescermos.
Durante o encontro, chegamos a uma formulação que considero central:
Às vezes, não temos medo de crescer. Temos medo de não pertencer mais depois que crescermos.
Isso muda bastante a compreensão do problema.
Imagine uma família em que segurança sempre significou concurso público.
O que acontece quando alguém decide empreender?
Ou uma família na qual humildade foi associada a ter pouco.
O que acontece quando alguém começa a prosperar?
Ou um grupo em que ser amado dependeu de não chamar muita atenção.
O que acontece quando alguém se torna visível?
Crescer pode produzir uma incongruência dolorosa entre a vida que começamos a desejar para nós e a forma como pessoas que amamos aprenderam a viver.
E não precisamos demonizá-las.
Elas também receberam seus mapas.
A questão não é convencê-las. A questão é conseguir permanecer no lugar que escolhemos mesmo quando aqueles que amamos não conseguem compreendê-lo.
Porque toda expansão modifica alguma coisa.
Modifica lugares. Modifica vínculos. Modifica expectativas. Modifica identidades.
E algumas pessoas permanecem pequenas não porque lhes falte capacidade, mas porque, em algum nível mais profundo, continuar pequenas garante continuar pertencendo.
Então vale suportar por alguns segundos uma pergunta incômoda:
Quem você teme deixar para trás se realmente prosperar?
Não responda rápido demais.
Algumas perguntas precisam de um pouco de silêncio!
Crescer não é inflar
Existe ainda outra distinção necessária.
Crescimento não é inflação.
Ser maior não é parecer maior. É tornar-se capaz de sustentar mais.
Na perspectiva junguiana, a inflação aparece quando o ego se identifica com uma grandeza que ainda não possui estrutura psíquica para sustentar.
Por isso, visibilidade sem consistência pode produzir exposição.
Autoridade sem competência pode produzir inflação.
Crescimento sem estrutura pode produzir sobrecarga.
Essa distinção é particularmente importante em uma época em que somos permanentemente convidados a parecer maiores.
Mais seguidores... Mais títulos... Mais exposição... Mais faturamento... Mais produtividade... Mais autoridade... Mais...Mais... Mais.
Mas expansão verdadeira não aumenta apenas a imagem.
Aumenta capacidade.
Você quer parecer maior, ou tornar-se maior em capacidade?
Talvez você não precise desejar mais
Vivemos cercados por discursos que nos ensinam a aumentar o desejo.
Queira mais.
Sonhe maior.
Eleve sua meta.
Pense grande.
Mas talvez, em determinados momentos da vida, o problema não seja desejar pouco.
Talvez você já deseje bastante.
Talvez a questão seja:
Quanto daquilo que você deseja você realmente consegue sustentar?
Todo próximo nível exige uma estrutura que o nível anterior ainda não precisava ter.
Mais clientes exigem processos.
Mais visibilidade exige tolerância ao julgamento.
Mais liderança exige capacidade de lidar com conflito.
Mais liberdade exige responsabilidade.
Então a pergunta deixa de ser somente “como consigo aquilo que quero?” e passa a ser:
O que precisa crescer em mim para que aquilo que desejo não me desorganize quando chegar?
Essa, para mim, é uma pergunta de maturidade.
Toda expansão cobra alguma coisa
Há ainda uma fantasia bastante sedutora sobre crescimento: a ideia de que podemos entrar no novo sem abandonar absolutamente nada do antigo.
Geralmente não podemos.
Toda expansão pede alguma renúncia.
Não necessariamente às pessoas que amamos ou às coisas importantes da nossa história.
Muitas vezes precisamos renunciar ao modo antigo de funcionar.
Talvez ao perfeccionismo.
Talvez à necessidade de agradar.
Talvez ao controle.
Talvez ao hábito de cobrar pouco.
Talvez à necessidade de fazer tudo sozinha.
Talvez a projetos que já perderam o sentido.
Talvez à identidade de quem precisava provar o tempo inteiro que dava conta.
Talvez ao conforto de continuar cabendo exatamente no lugar onde sempre coube.
Por isso gosto desta pergunta:
O que você diz querer, mas ainda não está disposta a deixar para trás para conseguir?
Porque todo “sim” importante costuma carregar algum “não”.
Desejar não significa se autorizar a receber
Você pode desejar prosperidade e, ao mesmo tempo, organizar sua vida para não recebê-la.
Essa talvez seja uma das contradições mais difíceis de perceber em nós mesmos.
Conscientemente, eu digo:
“Quero ganhar mais.”
“Quero ser reconhecida.”
“Quero ampliar meu trabalho.”
“Quero ocupar esse lugar.”
Mas outra parte de mim pode ter aprendido que pessoas como eu não chegam lá. Que prosperar demais é perigoso. Que dinheiro modifica as pessoas. Que aparecer desperta inveja. Que ganhar muito é incompatível com humildade. Que receber com facilidade significa não merecer.
Então desejo e autorização começam a caminhar em direções diferentes.
E talvez por isso uma pergunta importante não seja apenas:
Quanto de prosperidade você consegue desejar?
Mas:
Quanto consegue receber sem culpa?
O que existe no subterrâneo?
Podemos estabelecer uma excelente meta.
Podemos criar indicadores.
Podemos montar uma estratégia impecável.
E ainda assim alguma coisa dentro de nós continuar trabalhando na direção contrária.
É por isso que, quando alguém percebe que está procrastinando repetidamente, perdendo potência ou adiando algo importante, considero pobre parar na acusação:
“Estou procrastinando.”
Tudo bem.
Mas por quê?
Por que estou procrastinando justamente isso?
Por que estou perdendo energia quando me aproximo desse movimento?
O que aconteceria se desse certo?
O que eu teria que sustentar?
Quem eu me tornaria?
O que mudaria nos meus vínculos?
O que deixaria de poder dizer sobre mim?
Que versão minha precisaria morrer para que outra pudesse existir?
Na linguagem junguiana, há conteúdos que permanecem na sombra. E na sombra não estão apenas nossos medos, feridas e aspectos rejeitados.
Também está o potencial.
Às vezes aquilo que precisa emergir não é um monstro.
É uma força.
Durante o encontro, contei uma experiência pessoal que me fez olhar justamente para isso. Eu me reconheço como alguém corajosa, desbravadora, capaz de fazer movimentos importantes. E ainda assim, ao trabalhar simbolicamente com a imagem de um coelho associado ao medo, fui confrontada com algo muito simples: debaixo de várias camadas de coragem, ainda podia existir um medo que precisava ser visto.
Uma coisa não anula a outra.
Com certeza coragem não é ausência de medo.
Possivelmente coragem seja a capacidade de reconhecer o medo sem entregar a ele a direção da própria vida.
A coragem também pode ser lembrada
No final daquele encontro fizemos uma experiência.
Em duplas, cada pessoa foi convidada a retornar simbolicamente a um momento da própria história em que havia realizado um salto importante.
Não precisava ter sido uma experiência agradável.
Precisava ter sido transformadora.
Um momento em que aquela pessoa, de alguma maneira, atravessou um limite e descobriu em si uma capacidade que talvez ainda não soubesse possuir.
A proposta era presentificar aquela experiência: lembrar onde estava, quem estava presente, o que estava acontecendo, qual era o desafio, o que precisou acreditar, que recurso encontrou dentro de si e quem se tornou depois daquela travessia.
Há algo muito bonito nisso. Porque, quando pensamos no futuro, costumamos olhar apenas para aquilo que ainda nos falta.
Mas existe uma mala de recursos que veio conosco até aqui.
Você já atravessou coisas. Já tomou decisões difíceis. Já suportou mudanças. Já começou de novo. Já fez coisas que, em determinado momento, não sabia se conseguiria fazer.
Talvez a coragem necessária para o próximo salto não precise ser inventada.
Talvez precise ser reconhecida.
A pergunta do Estanho
E é justamente aí que o Estanho nos faz sua pergunta mais importante.
Ele não pergunta apenas quanto você quer ganhar, quantos clientes deseja ter, que reconhecimento pretende alcançar ou quão grande gostaria que sua carreira se tornasse.
Porque desejar mais é relativamente fácil.
O Estanho pergunta pela estrutura que receberá esse crescimento.
Pergunta pela sua maleabilidade.
Pela coragem de abandonar formas antigas.
Pela autorização para prosperar.
Pela capacidade de permanecer inteira quando seus vínculos se reorganizarem.
Pela estrutura necessária para sustentar aquilo que você pede à vida.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quão grande você quer ser?”
Mas:
“Quanto de vida você já é capaz de sustentar?”
A coragem de crescer não é a coragem de querer tudo. É a coragem de deixar de organizar a própria vida pelos limites de quem você já não é mais.
Márcia Christovam
Psicóloga & Mentora de Carreira | CRP 09/1891
Logos Cia – Clínica & Consultoria
Projeto Ninho
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